INE: renda mediana dos novos contratos acelera para 9,46 €/m2 e avaliação bancária bate recorde
Rendas dos novos arrendamentos sobem 9,1% no primeiro trimestre; avaliação bancária atinge 2.208 €/m2 em maio, novo máximo da série.
Número 3.83.
Ilustração editorial gerada pelo modelo gpt-image-2.
O dia. O INE divulgou esta sexta-feira dois indicadores que apontam na mesma direcção. A renda mediana dos novos contratos de arrendamento atingiu 9,46 euros por metro quadrado no primeiro trimestre de 2026. A avaliação bancária da habitação chegou a 2.208 euros/m2 em maio, um novo máximo da série, segundo a TSF.
Os números das rendas. Foram celebrados 39.395 novos contratos no trimestre, mais 0,7% face ao período homólogo. A subida da renda mediana foi de 9,1% — acima dos 7,9% do trimestre anterior.
O que mede o indicador. O número descreve quem entra agora no mercado. A série do INE cobre apenas contratos celebrados no trimestre — um fluxo, não o conjunto dos arrendamentos em vigor. Economistas da habitação que trabalham estas séries sublinham a distinção: a maioria dos contratos vigentes é actualizada pelo coeficiente legal anual, fixado em 2,24% para 2026. A pressão de 9,1% concentra-se em quem procura casa, não no arrendatário com contrato antigo.
A geografia. A renda mediana subiu em todas as 26 sub-regiões NUTS III. As mais altas registaram-se na Grande Lisboa (14,38 euros/m2), Madeira (11,97), Península de Setúbal (11,35), Algarve (10,71) e Área Metropolitana do Porto (10,13). Lisboa mantém-se o concelho mais caro, a 17,42 euros/m2. A maior subida homóloga coube a Vila Nova de Famalicão (15,1%). A Grande Lisboa e a AMP concentraram 44% dos novos contratos. A mediana nacional agrega realidades muito desiguais; parte da variação reflecte onde os contratos se concentram, não apenas preço do mesmo imóvel.
A avaliação bancária. O valor de maio — 2.208 euros/m2 — subiu 17,1% em termos homólogos, acima dos 16,5% de abril. Foram realizadas cerca de 35,5 mil avaliações, mais 0,8% do que há um ano. A Península de Setúbal teve a maior variação homóloga (22,5%). Este indicador mede o valor que os bancos atribuem ao colateral em pedidos de crédito à habitação. Não é preço de transação: reflecte a avaliação para financiamento, sistematicamente distinta do que se paga no mercado.
Quem decide. A política de habitação está nas mãos do ministro Miguel Pinto Luz e da secretária de Estado Patrícia Gonçalves Costa. O pacote fiscal — Lei n.º 9-A/2026 — está promulgado, com IVA da construção a 6% e IRS de 10% nas rendas até 2.300 euros mensais. O Programa de Parcerias para o Arrendamento Acessível (RCM 164/2025) tem meta de 10.000 fogos. O IHRU foi autorizado a financiar 12.000 habitações.
O desfasamento. Os instrumentos aprovados não alteram de imediato a fotografia que o INE capta. As rendas dos novos contratos reajustam-se trimestre a trimestre. A oferta é lenta, a procura e o capital são rápidos. Não há avaliação ex post que permita medir a eficácia das medidas — os dados confirmam pressão no mercado, não fecham causalidade política.
A aritmética. A AD tem 91 deputados em 230, abaixo dos 116 da maioria absoluta. Qualquer medida legislativa adicional — travão extraordinário às rendas, alterações ao NRAU, reforço do Porta 65 — terá de ser negociada com o PS (58) ou com o Chega (60). O precedente de 2023 mostrou que o coeficiente de actualização é suspensível por lei ordinária, mas um travão sobre contratos existentes não toca a mediana dos novos contratos, onde aparecem os 9,1%.
O contexto. A subida não é nova de direcção, é nova de velocidade. Em março de 2025 a renda mediana dos novos contratos era de 8,22 euros/m2; um ano depois, 9,46 — mais 15%. Daniel Oliveira, no Expresso, recorda que em 2025 os preços da habitação subiram 17,6%, a maior subida desde 2009, e que a Comissão Europeia estima Portugal como o mercado mais sobrevalorizado da UE, cerca de 35%.
O que falta. Até ao fecho da edição não houve reacção oficial do Governo, da tutela da Habitação ou dos partidos com assento parlamentar aos números divulgados.
Notas
https://www.tsf.pt/economia/artigo/rendas-das-casas-sobem-9-no-primeiro-trimestre-deste-ano/18099513
Fontes de verdade consultadas: 27
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