Guerra Israel-EUA-Irão entra na segunda semana: petróleo acima dos 110 dólares, ataques alastram ao Golfo e G7 não liberta reservas
Israelitas e iranianos continuam a trocar ataques de mísseis e drones; a guerra vai endurecer, agora com Mojtaba Khamenei como novo líder supremo
Número 3.35. Nesta edição:
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Guerra Israel-EUA-Irão entra na segunda semana: petróleo acima dos 110 dólares, ataques alastram ao Golfo e G7 não liberta reservas
Mojtaba Khamenei nomeado líder supremo do Irão
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Eurogrupo reúne-se de emergência com petróleo acima dos 100 dólares e Europa a reviver fantasma de 2022
Von der Leyen declara fim da “velha ordem mundial” e exige reforma urgente da política externa europeia
Europa triplica importações de armas e torna-se maior compradora mundial
Comunidades locais de energia na UE avançam muito abaixo do previsto
🇵🇹 🇵🇹
António José Seguro toma posse como Presidente da República e promete ser o “Presidente de Portugal inteiro”
Euribor dispara para máximos de um ano e ameaça prestações da casa
Miranda Sarmento admite que Portugal pode ter défice em 2026 devido à guerra e às tempestades
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Verdes vencem eleições em Baden-Württemberg por margem estreita; SPD e FDP em colapso histórico
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Crise interna no Vox: Ortega Smith denuncia direção e ex-líder juvenil do PP admite aproximação ao partido
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Meloni acusada de querer mudar a lei eleitoral italiana para se manter no poder
Nota: a edição é longa, pelo que pode ficar cortada nalguns leitores de correio eletrónico. Se for o caso, terá no final o link para ler na web a edição completa.
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🛡️🛢️ Guerra Irão-Israel-EUA entra na segunda semana: petróleo acima dos 110 dólares, ataques alastram ao Golfo e G7 não vai libertar reservas
O petróleo ultrapassou os 110 dólares por barril (WTI a 111,24 dólares, +18,3%), o valor mais alto desde julho de 2022, com o estreito de Ormuz quase paralisado.
O G7 reuniu-se esta segunda-feira para discutir a libertação de reservas estratégicas de petróleo e decidiu não avançar - pelo menos para já
Os ataques iranianos estenderam-se ao Bahrain (32 feridos, incêndio em refinaria), à Arábia Saudita (dois mortos) e ao espaço aéreo turco, onde a NATO interceptou um segundo míssil em menos de uma semana.
As bolsas registaram quedas acentuadas — Tóquio e Seul caíram 6%, Madrid 3,17%, Frankfurt 2,5% — e analistas da Moody’s alertam para riscos de inflação prolongada e subida de taxas de juro.
No décimo dia da ofensiva militar lançada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão, o conflito alastrou a múltiplos países do Golfo Pérsico e do Mediterrâneo oriental, provocando um choque nos mercados energéticos e financeiros globais. O preço do petróleo ultrapassou os 110 dólares por barril durante as negociações asiáticas de segunda-feira, 9 de março de 2026, com o West Texas Intermediate (WTI) a atingir 111,24 dólares — uma subida de 18,3% e o valor mais alto desde julho de 2022. O Brent, referência europeia, situou-se nos 107 dólares. Os ministros das Finanças do G7 reuniram-se de emergência e tomaram a decisão de não avançar - pelo menos para já - com a libertação de reservas estratégicas de petróleo, apesar da subida dos preços e da escalada militar.
O que está a acontecer no terreno. Israel e o Irão continuam a trocar ataques de mísseis e drones. A força aérea israelita lançou uma nova série de bombardeamentos no centro do Irão e atingiu infraestruturas do Hezbollah em Beirute. O Hezbollah afirmou ter combatido cerca de 16 helicópteros israelitas que entraram no espaço aéreo libanês. Do lado iraniano, mísseis foram disparados contra Israel, activando alarmes em Telavive e Haifa, com pelo menos um ferido confirmado. Segundo o Corriere della Sera, o Irão regista cerca de 1.400 mortos desde o início da ofensiva, incluindo 400 crianças, enquanto Israel sofreu perdas civis e militares menores. A nomeação de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo do Irão, sucedendo ao pai Ali Khamenei, adicionou uma camada de instabilidade política ao conflito.
Os ataques alastram ao Golfo. O Irão estendeu as represálias a países vizinhos. No Bahrain, um ataque noturno com drones na ilha de Sitra causou 32 feridos civis, incluindo crianças e um bebé de dois meses que necessitaram de cirurgia. Horas depois, um bombardeamento iraniano atingiu a instalação petrolífera de Al Maameer, provocando um incêndio. Na Arábia Saudita, dois civis morreram. Os Estados Unidos retiraram diplomatas não essenciais da Arábia Saudita e do consulado de Adana, no sul da Turquia, próximo da base aérea de Incirlik, usada pelas forças americanas na NATO. O primeiro-ministro do Catar apelou à desescalada e à continuação do diálogo diplomático.
NATO intercepta segundo míssil na Turquia. O Ministério da Defesa turco anunciou que baterias antiaéreas da NATO neutralizaram um míssil iraniano que entrou no espaço aéreo do país — o segundo incidente deste tipo em menos de uma semana. Os destroços caíram numa zona despovoada de Gaziantep, sem vítimas. A NATO reforçou a defesa antimísseis no Mediterrâneo oriental e reiterou o apoio à Turquia. Ancara advertiu que tomará “todas as medidas necessárias contra qualquer ameaça ao território e espaço aéreo” turco.
Mercados em queda livre. A quase paralisação do estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito — está no centro do choque energético. As bolsas asiáticas foram as mais atingidas: Tóquio (Nikkei) caiu quase 7%, Seul 6%, e as praças chinesas e de Hong Kong abriram com descidas até 2,65%. Na Europa, Madrid perdeu 3,17% (IBEX 35 nos 16.533 pontos), Frankfurt 2,5%, Milão 2,3%, Paris 2,26% e Londres 1,6%. O euro valorizou-se para 1,156 dólares. Analistas da Moody’s alertam que uma subida prolongada do petróleo acima dos 100 dólares poderá agravar a inflação e pressionar os bancos centrais a subir taxas de juro.
Os riscos à frente. Especialistas citados pelo El País alertam para a dificuldade de alcançar os objectivos declarados — destruição do arsenal iraniano e mudança de regime — apenas com ataques aéreos, e apontam o risco de estagflação. O presidente ucraniano Volodymyr Zelenski anunciou que especialistas ucranianos em drones estarão no Médio Oriente na próxima semana, acrescentando mais um actor ao tabuleiro. O Irão implementou racionamento temporário de gasolina em resposta aos bombardeamentos israelitas. A situação permanece altamente volátil, com múltiplos actores regionais e internacionais envolvidos e sem sinais de desescalada à vista.
🇮🇷🛡️ Mojtaba Khamenei nomeado líder supremo do Irão em plena ofensiva militar dos EUA e Israel
A Assembleia de Especialistas nomeou Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como terceiro líder supremo da República Islâmica, sucedendo ao pai, Ali Khamenei, morto durante os ataques israelo-americanos.
Trump classificou a escolha como “inaceitável” e ameaçou que o novo líder “não durará muito tempo”; Israel identificou Mojtaba como possível alvo.
A Guarda Revolucionária (IRGC) declarou “respeito, lealdade e obediência” ao novo guia, mas analistas consideram que o poder efectivo está nas mãos dos comandantes militares.
Em Teerão, registaram-se simultaneamente celebrações de apoiantes e protestos com cânticos de “Morte a Mojtaba!”, evidenciando a divisão interna.
A Assembleia de Especialistas do Irão nomeou Mojtaba Khamenei, de 56 anos, como terceiro líder supremo da República Islâmica, numa sessão extraordinária realizada pouco depois da meia-noite de domingo, hora local. Mojtaba sucede ao pai, o aiatola Ali Khamenei, morto no início da ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel, que entra agora no décimo dia com bombardeamentos contínuos sobre Teerão.
O anúncio e a base legal. A televisão estatal iraniana leu o comunicado oficial: “Esta Assembleia, após deliberações exaustivas e extensas e utilizando a autoridade concedida pelo Artigo 108.º da Constituição, nomeia e apresenta o aiatola Mojtaba Khamenei como o terceiro líder do sistema sagrado da República Islâmica do Irão.” O órgão, composto por 88 clérigos eleitos, justificou a rapidez da decisão com a necessidade de evitar um vazio de liderança e apelou a que Mojtaba seja um “símbolo de consenso nacional”, sublinhando a urgência de unidade num momento de guerra.
Quem é Mojtaba Khamenei. Figura até agora reservada, Mojtaba é considerado um religioso conservador com ligações estreitas à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Ingressou na organização no final dos anos 1980 e iniciou a carreira religiosa aos 30 anos, estudando em Qom, centro da teologia xiita. Apesar de se manter nos bastidores, já exercia influência significativa — nomeadamente nas eleições presidenciais de 2005 e 2009, associadas a acusações de manipulação que desencadearam os protestos do Movimento Verde. Como líder supremo, terá a palavra final sobre todos os assuntos de Estado e actuará como comandante-chefe das Forças Armadas e da IRGC.
Reacção dos EUA e de Israel. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a nomeação como “inaceitável” em declarações à ABC News, antes mesmo do anúncio oficial. Trump insistiu que, se o eleito não tivesse a aprovação de Washington, “não iria durar muito tempo”. Numa entrevista posterior ao New York Post, reiterou o descontentamento. Israel, por seu lado, já tinha declarado a intenção de visar qualquer sucessor de Ali Khamenei, identificando Mojtaba como possível alvo — o que eleva a tensão num conflito já em escalada.
O IRGC alinha, mas quem manda? A Guarda Revolucionária emitiu um comunicado a expressar “respeito, lealdade e obediência” ao novo líder supremo, descrevendo a eleição como “um novo amanhecer e o início de uma nova etapa na Revolução”. Contudo, Mohsen Sazegara, cofundador do IRGC, disse à Euronews que Mojtaba não possui a autoridade nem o prestígio do pai e que o poder efectivo no Irão está, na prática, nas mãos dos comandantes militares da organização. A análise sugere que, apesar do título, o novo guia poderá ser mais uma figura institucional do que um decisor autónomo.
Divisão nas ruas de Teerão. O anúncio provocou reacções opostas na capital iraniana. Apoiantes celebraram nas ruas, com declarações de entusiasmo: “Após uma semana inteira de espera, estamos muito felizes que agora o líder tenha sido eleito.” Mas um vídeo de 17 segundos, captado à noite e tornado viral nas redes sociais, mostra mulheres a gritar “Morte a Mojtaba!” em persa, enquanto cânticos religiosos soam ao longe. A contestação reflecte o receio, partilhado por sectores da população e até por figuras próximas do regime, de que a sucessão dinástica contradiga os princípios fundadores da Revolução Islâmica de 1979.
Escalada militar em paralelo. No mesmo dia da nomeação, o Irão lançou a primeira salva de mísseis contra Israel após o anúncio. Explosões foram também ouvidas na madrugada de segunda-feira, 9 de março, no Qatar, onde se situa uma importante base aérea norte-americana. O contexto bélico torna a transição de poder particularmente volátil: Mojtaba assume a liderança de um país sob ataque, com infraestruturas militares e políticas sob pressão, e com adversários que declararam abertamente a intenção de o eliminar.
Factos
Mojtaba Khamenei, de 56 anos, foi nomeado pela Assembleia de Especialistas (88 clérigos) como terceiro líder supremo do Irão, ao abrigo do artigo 108.º da Constituição.
A nomeação ocorre no décimo dia da ofensiva militar conjunta dos EUA e Israel contra o Irão, após a morte de Ali Khamenei.
Mojtaba ingressou na Guarda Revolucionária no final dos anos 1980 e estudou teologia em Qom; esteve ligado às polémicas eleições presidenciais de 2005 e 2009.
O Irão lançou mísseis contra Israel no domingo, 8 de março, e explosões foram ouvidas no Qatar na madrugada de 9 de março, junto a uma base aérea dos EUA.
A União Europeia classifica a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como organização terrorista.
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🇪🇺💶 Eurogrupo reúne-se de emergência com petróleo acima dos 100 dólares e Europa a reviver fantasma de 2022
Os ministros das Finanças da zona euro reuniram-se esta segunda-feira em Bruxelas para avaliar o impacto económico da guerra entre EUA/Israel e Irão, com o petróleo acima dos 100 dólares e o gás a subir quase 17%.
A Comissão Europeia garante que não há risco imediato de escassez de gás, mas pondera aliviar impostos, encargos de rede e custos de carbono para proteger indústrias intensivas em energia.
Analistas prevêem agora duas subidas de 25 pontos base nas taxas de juro do BCE até julho, o dobro do anteriormente esperado, agravando o dilema entre combater a inflação e proteger o crescimento.
Os níveis de armazenamento de gás na UE estão em cerca de 30%, abrindo um período crítico de reabastecimento antes do próximo inverno.
Os ministros das Finanças da zona euro reuniram-se esta segunda-feira, 9 de março, em Bruxelas, para discutir pela primeira vez os impactos económicos da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, que arrancou a 28 de fevereiro e já fez o preço do petróleo ultrapassar os 100 dólares por barril — um patamar que não se via desde 2022. O presidente do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis, admitiu em entrevista à Euronews que “estamos a ser testados”, enquanto a Comissão Europeia activou um grupo de coordenação de emergência e começou a desenhar medidas de alívio para a indústria.
O que está em cima da mesa. O encontro — no qual Portugal esteve representado pelo ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento — centrou-se na evolução macroeconómica da zona euro, com destaque para os efeitos da subida dos preços da energia e das pressões inflacionistas. O preço de referência do Brent subiu mais de 17%, ultrapassando os 100 dólares, enquanto o gás natural no mercado europeu TTF aumentou quase 17%, atingindo 62 euros por megawatt-hora. As bolsas europeias reagiram em baixa, com o Ibex 35 entre os índices mais penalizados.
Abastecimento garantido, preços não. A Comissão Europeia assegura que não existe escassez imediata de gás. Paula Ceballos, analista da Representação da Comissão em Espanha, sublinhou que a situação difere do choque de 2022: as fontes de gás estão hoje mais diversificadas, com o GNL dos Estados Unidos a representar a maior fatia das importações e o gás norueguês por gasoduto a garantir estabilidade. O corte das exportações de gás do Catar, provocado por ataques iranianos, afecta sobretudo a Polónia. Contudo, os níveis de armazenamento de gás na UE situam-se em apenas cerca de 30%, abrindo um período crítico para reabastecer reservas antes do próximo inverno.
Alívio fiscal para a indústria pesada. Segundo um documento obtido pela Euronews, a Comissão Europeia pondera rever impostos nacionais sobre a energia, encargos das redes eléctricas e custos de carbono como resposta rápida para proteger indústrias intensivas em energia. Os sectores químico, do aço e do alumínio — que dependem de grandes volumes de energia — têm pressionado Bruxelas para intervir face à escalada dos preços da electricidade e do gás.
O dilema do BCE. O choque energético está a redesenhar as expectativas sobre a política monetária. A maioria dos analistas antecipa agora duas subidas de 25 pontos base nas taxas de juro do Banco Central Europeu, quando antes se previa apenas uma. O primeiro aumento deverá ocorrer até julho. Evelina Gomes-Lichti, estratega da Mizuho International, alertou que o BCE enfrenta um dilema: “Flexibilizar a política monetária durante a crise do petróleo pode comprometer a credibilidade, enquanto uma política mais restritiva pode prejudicar o crescimento económico.” O próprio BCE já avisou que uma guerra prolongada no Médio Oriente poderá elevar a inflação e reduzir o crescimento, com os custos energéticos a propagar-se por toda a economia.
O contexto geopolítico. A crise foi desencadeada pelo ataque militar dos Estados Unidos e Israel ao Irão, lançado a 28 de fevereiro, durante o qual foi morto o ayatollah Ali Khamenei, líder supremo iraniano desde 1989. Em retaliação, o Irão encerrou o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial — e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e infraestruturas em países da região, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Iraque, Chipre e Turquia. Gonzalo Escribano, do Real Instituto Elcano, notou que a situação esteve particularmente crítica na sexta-feira, mas registaram-se progressos durante o fim de semana.
E agora? A incerteza permanece elevada. Uma escalada prolongada ameaça perturbar cadeias de abastecimento, aumentar custos de transporte e reduzir o investimento na Europa. Os mercados atribuem cerca de 50% de probabilidade a uma subida da taxa do Banco de Inglaterra até ao final do ano, invertendo previsões anteriores de cortes. Para a zona euro, o cenário depende da duração do conflito e da capacidade de Bruxelas para amortecer o choque — sem repetir os erros de 2022.
🇪🇺🌍 Von der Leyen declara fim da “velha ordem mundial” e exige reforma urgente da política externa europeia
Von der Leyen pediu uma revisão profunda da doutrina, instituições e processos decisórios da UE, questionando se a unanimidade na política externa é um auxílio ou um obstáculo à credibilidade europeia.
A presidente da Comissão enfrenta críticas de vários governos e diplomatas por se ter posicionado como principal representante externa da UE, papel que caberia à alta representante Kaja Kallas.
Von der Leyen defendeu o aumento dos gastos militares, a criação de uma coluna europeia de capacidades estratégicas e a integração acelerada da Ucrânia, Balcãs Ocidentais e Moldova na UE.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou perante mais de 140 embaixadores da UE em Bruxelas que “a Europa já não pode ser a guardiã da velha ordem mundial, de um mundo que desapareceu”, apelando a uma reforma urgente e profunda da política externa europeia. O discurso, proferido na conferência anual de embaixadores a 9 de março, surge com a guerra no Irão a entrar na segunda semana e os seus efeitos a atingirem directamente o território e a economia europeus.
O que mudou no discurso europeu. Von der Leyen abandonou a retórica tradicional da UE assente na defesa incondicional do sistema multilateral “baseado em regras”. A presidente afirmou que, embora a União continue a defender o sistema que ajudou a construir, este “já não é suficiente para proteger os seus interesses”. Questionou frontalmente se a doutrina, as instituições e os processos decisórios europeus — concebidos num contexto pós-guerra de estabilidade e multilateralismo — acompanham o ritmo das mudanças globais. Em particular, pôs em causa o princípio da unanimidade nas decisões de política externa e defesa, considerando-o um potencial obstáculo à credibilidade geopolítica do bloco.
A guerra no Irão bate à porta da Europa. A campanha de ataques aéreos liderada pelos Estados Unidos e Israel contra o regime iraniano, com ataques retaliatórios de Teerão na região do Golfo Pérsico, está a provocar ondas de choque na Europa. O preço do petróleo atingiu brevemente os 120 dólares por barril e o gás europeu subiu cerca de 30% num único dia — embora ainda longe dos picos de 2022 após a invasão russa da Ucrânia. Von der Leyen referiu que “os cidadãos europeus estão encurralados”, citando um ataque com drone iraniano a uma base britânica em Chipre, território da UE, além de perturbações no comércio, nos transportes e deslocações populacionais. A intervenção antecedeu uma videoconferência com líderes do Médio Oriente, organizada em conjunto com o presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Sem lágrimas pelo regime iraniano. Sobre o conflito em si, a presidente da Comissão evitou pronunciar-se sobre se se trata de uma guerra “por escolha ou necessidade”, mas foi inequívoca na condenação do regime de Teerão. “Não se deve derramar uma lágrima pelo regime iraniano”, declarou, acusando-o de “infligir morte e repressão ao seu povo” e de desestabilizar a região através de aliados armados com mísseis e drones. Von der Leyen reconheceu que muitos iranianos, dentro e fora do país, celebraram a possível queda do aiatola Ali Kamenei, mas alertou para os riscos de instabilidade durante e após o conflito. A alta representante para a Política Externa, Kaja Kallas, alinhou com esta posição, alertando igualmente para o potencial “caos” decorrente da guerra.
A agenda estratégica. Para além do diagnóstico, Von der Leyen apresentou uma agenda concreta. Defendeu o reforço dos gastos militares dos Estados-membros e a criação de uma “coluna europeia de capacidades estratégicas” em áreas como o espaço, armamento de longo alcance e serviços de informação. Está em curso a elaboração de uma nova estratégia de segurança europeia. A presidente insistiu ainda na necessidade de desbloquear o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, actualmente vetado pela Hungria, e de acelerar a integração da Ucrânia, dos Balcãs Ocidentais e da Moldova na União Europeia, mesmo antes de se tornarem membros plenos. A possibilidade de reformar o sistema de unanimidade depende, entre outros factores, do resultado das eleições húngaras em abril.
Críticas internas ao protagonismo. O discurso ambicioso não ficou isento de contestação. Nove diplomatas, funcionários da UE e deputados de diversos países europeus criticaram o que descrevem como um “excesso diplomático” de Von der Leyen. Vários governos consideram que a presidente da Comissão ultrapassou o seu mandato ao posicionar-se como principal representante externa da UE nos primeiros dias da crise iraniana — papel que, formalmente, cabe a Kallas, enquanto representante dos 27 Estados-membros. As queixas estendem-se a outras áreas: a aceleração da adesão da Ucrânia e a abordagem ao “Board of Peace” de Donald Trump também geraram desconforto. Com o conflito no Médio Oriente a expor divisões entre aliados ocidentais, a UE tem tido dificuldades em apresentar uma voz comum.
E agora? O teste à ambição reformista de Von der Leyen será duplo: por um lado, a capacidade de traduzir o discurso em mudanças institucionais concretas, num bloco onde qualquer alteração aos tratados exige consenso alargado; por outro, a gestão dos impactos económicos e securitários imediatos de um conflito que, como a própria reconheceu, já não é apenas regional. A videoconferência com líderes do Médio Oriente e as próximas reuniões do Conselho Europeu serão os primeiros testes à coesão do bloco.
🔫🇪🇺 Europa triplica importações de armas e torna-se maior compradora mundial
As importações de armas na Europa cresceram 210% entre 2016-2020 e 2021-2025, tornando o continente o maior destinatário mundial de armamento, com 33% do total global, segundo o relatório do SIPRI divulgado a 9 de março. A Ucrânia absorveu 9,7% das transferências mundiais, seguida pela Polónia e pelo Reino Unido como maiores importadores europeus.
O rearmamento é impulsionado pela guerra na Ucrânia e pela perceção de ameaça russa, com as importações dos 29 países europeus da NATO a subirem 143%. “A maioria dos países europeus começou a importar significativamente mais armas para reforçar as suas capacidades militares”, afirmou Mathew George, diretor do programa de transferências de armas do SIPRI.
Os EUA consolidaram o domínio como fornecedores, com 42% das exportações globais e 48% das armas transferidas para a Europa. A Alemanha ultrapassou a China como quarto maior exportador mundial, enquanto a Rússia registou uma queda de 64% nas vendas.
⚡🏘️🇪🇺 Comunidades locais de energia na UE avançam muito abaixo do previsto
O Tribunal de Contas Europeu concluiu, num relatório divulgado esta segunda-feira, que a criação de comunidades de energia — onde cidadãos, autarquias e pequenas empresas produzem e partilham energia renovável — está a ficar muito aquém das metas. Burocracia excessiva, falta de informação e resistência dos grandes produtores travam o progresso.
O alerta surge num momento crítico: a guerra no Médio Oriente interrompeu o tráfego de petroleiros no Golfo Pérsico e fez disparar os preços do petróleo e do gás, reforçando a urgência da autonomia energética europeia. Pierfrancesco Maran, novo presidente do comité do ambiente do Parlamento Europeu, classificou o Pacto Ecológico como um “acordo de liberdade”, essencial não só para o clima, mas para a segurança do bloco.
A concretização de iniciativas como painéis solares partilhados ou turbinas eólicas geridas localmente continua dependente de simplificação regulatória e maior apoio aos cidadãos.
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🇵🇹🏛️ António José Seguro toma posse como Presidente da República e promete ser o “Presidente de Portugal inteiro”
António José Seguro tomou posse como sexto Presidente da República eleito em democracia, sucedendo a Marcelo Rebelo de Sousa, numa sessão solene na Assembleia da República a 9 de março de 2026.
O novo chefe de Estado prometeu travar o “frenesim eleitoral” e ser o “Presidente de Portugal inteiro”, num contexto de fragmentação parlamentar e polarização partidária.
Estudantes da Greve Climática Estudantil e do Climáximo protestaram entre o Largo do Rato e o Parlamento, exigindo um compromisso presidencial com o fim dos combustíveis fósseis até 2030.
A transição marca o fim de um ciclo: Marcelo foi o último Presidente com ligação directa à transição democrática; Seguro inaugura uma nova geração política em Belém.
António José Seguro tomou posse esta segunda-feira, 9 de março, como Presidente da República, numa sessão solene na Assembleia da República em que prestou juramento sobre a Constituição. É o sexto chefe de Estado eleito em democracia e sucede a Marcelo Rebelo de Sousa, que cumpriu dois mandatos. Seguro prometeu ser o “Presidente de Portugal inteiro” e assegurou que tudo fará para “estancar o frenesim eleitoral” que marcou os últimos anos da vida política portuguesa.
O dia do novo Presidente. Além da cerimónia no Parlamento, o programa oficial incluiu passagens pelo Mosteiro dos Jerónimos, pelo Palácio de Belém — cujos jardins foram abertos à população —, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), para um encontro com jovens, e pelo Palácio Nacional da Ajuda, onde Seguro condecorou o antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa.
O fim de um ciclo político. A posse de Seguro encerra uma era: até agora, o Palácio de Belém tinha sido ocupado por presidentes que participaram directamente na transição para a democracia. Marcelo Rebelo de Sousa, o 20.º Presidente da República, será recordado como o “presidente dos afectos”, das selfies e da proximidade com a população — um estilo que contrastou com o do antecessor, Aníbal Cavaco Silva, e que não deverá ser replicado pelo sucessor. Mas Marcelo ficará também associado à instabilidade política e ao recorde de dissoluções parlamentares, além do controverso “caso das gémeas”, que marcou o segundo mandato. Há quem o acuse de ter banalizado a instituição presidencial com comentários constantes sobre tudo e todos.
O que esperar de Seguro. A politóloga Marina Costa Lobo, investigadora no Instituto de Ciências Sociais e doutorada em Ciência Política pela Universidade de Oxford, sublinhou que “poderá haver um papel acrescido para o Presidente da República nestes tempos em que o contexto internacional está tão volátil”. A questão central, segundo a investigadora, é saber se Seguro revelará logo na posse, com um discurso estratégico, que país quer deixar quando sair de Belém — ou se optará por uma entrada cautelosa para não agitar um mundo partidário altamente polarizado e fragmentado no Parlamento. O novo Presidente é descrito como “previsível”, em contraste com a imprevisibilidade que caracterizou Marcelo.
Protesto climático às portas do Parlamento. Enquanto decorria a cerimónia, dezenas de estudantes concentraram-se em Lisboa num percurso entre o Largo do Rato e a Assembleia da República, exigindo que Seguro assuma um compromisso explícito com o fim dos combustíveis fósseis até 2030. O protesto foi convocado pela Greve Climática Estudantil e pelo colectivo Climáximo. De manhã, piquetes estudantis impediram a entrada nas escolas secundárias Camões e António Arroio, justificando a paralisação como um “sacrifício necessário” perante a crise climática.
“Promessas vagas não bastam.” Matilde Ventura, porta-voz da manifestação, reconheceu ao Público que o Presidente da República não tem poderes executivos para impor um plano climático, mas defendeu que o gabinete presidencial deve usar a sua influência institucional para pressionar o Governo. “Talvez em 2019 nos contentássemos com o Presidente que menciona as alterações climáticas. Em 2026, e depois das mortes que aconteceram [durante as tempestades], isso não é suficiente”, afirmou. Os estudantes enviaram uma carta ao novo Presidente — ainda sem resposta — insistindo na necessidade de abandonar os combustíveis fósseis até ao final da década. A crítica estende-se à forma como a transição energética está a ser conduzida, com grandes projectos solares em “territórios vulneráveis”, que os manifestantes classificam como “monoculturas solares” e “capitalismo verde”.
Os desafios que esperam Seguro. O novo Presidente entra em funções num contexto de elevada fragmentação parlamentar, polarização partidária e volatilidade internacional. A forma como exercerá os poderes constitucionais — nomeadamente o de dissolução da Assembleia da República e o de veto — será determinante para definir o tom do mandato. A promessa de estancar o “frenesim eleitoral” sugere uma presidência mais contida e institucional, em ruptura com o estilo de Marcelo. Resta saber se a previsibilidade será sinónimo de estabilidade ou de menor capacidade de intervenção num país que enfrenta desafios climáticos, sociais e geopolíticos crescentes.
📈⛽ 🇵🇹 Euribor dispara para máximos de um ano e ameaça prestações da casa
As taxas Euribor subiram esta segunda-feira, 9 de março, para os valores mais altos em quase um ano, impulsionadas pelo choque energético da guerra no Médio Oriente. A Euribor a 12 meses saltou para 2,367%, o nível mais elevado desde março de 2025, enquanto a taxa a seis meses — à qual estão indexados cerca de 40% dos empréstimos variáveis — subiu para 2,178%.
O petróleo Brent chegou a negociar acima dos 119 dólares durante a madrugada, estabilizando nos 103,50 dólares, um máximo desde fevereiro de 2022. O gás natural disparou 30% na abertura. Os receios de inflação reacendem o fantasma de novas subidas de juros pelos bancos centrais.
Os contratos de crédito à habitação a rever em abril poderão sofrer a primeira subida de prestação em quase dois anos. Em Portugal, 51% dos empréstimos continuam indexados a taxas variáveis, e os mercados de futuros já apontam para uma Euribor a três meses de 2,25% em junho.
🇵🇹 💶 Miranda Sarmento admite que Portugal pode ter défice em 2026 devido à guerra e às tempestades
O ministro das Finanças reconheceu em Bruxelas que não exclui um défice orçamental em 2026, apesar de o OE prever um excedente de 0,1% do PIB.
A guerra no Médio Oriente e o comboio de tempestades na região Centro são os dois choques que estreitaram a margem orçamental.
O petróleo ultrapassou os 100 dólares por barril e o gás natural ronda os 60 euros por MWh, levando o Governo a aplicar um desconto temporário de 3,55 cêntimos no ISP.
Miranda Sarmento disse acreditar que a Comissão Europeia não levantará objecções ao desconto no ISP, por ser extraordinário e temporário.
O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, admitiu esta segunda-feira, em Bruxelas, que Portugal pode registar défice orçamental em 2026 caso os choques externos o imponham. A declaração foi feita antes da reunião do Eurogrupo, num dia em que o petróleo negociava acima dos 100 dólares por barril e o gás natural se mantinha na casa dos 60 euros por megawatt-hora.
O que mudou. O Orçamento do Estado para 2026 foi construído com uma meta de excedente de 0,1% do PIB, apoiado nos bons resultados de 2025, que terão ficado ligeiramente acima dos 0,3% previstos. Dois acontecimentos alteraram o cenário: o comboio de tempestades que atingiu sobretudo a região Centro do país e a escalada militar no Médio Oriente, com a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, iniciada a 28 de fevereiro. “Não podemos excluir situações de défice se as circunstâncias assim o impuserem, mas continuamos com o compromisso do equilíbrio das contas públicas, da redução da dívida pública”, afirmou Miranda Sarmento aos jornalistas portugueses.
O caminho “bastante estreito”. O ministro reconheceu que a margem de manobra encolheu rapidamente. “Os bons resultados de 2025 permitiam olhar para 2026 com um caminho um bocadinho menos estreito, mas, agora, com o comboio de tempestades e este conflito, o caminho voltou a ficar bastante estreito”, disse. Ainda assim, rejeitou a comparação com a crise energética de 2022, quando a invasão russa da Ucrânia provocou uma disrupção semelhante nos mercados de energia.
Os números da energia. O contrato Brent para entrega em maio aproximava-se dos 103 dólares por barril — um patamar que não era atingido desde 2022. O gás natural rondava os 60 euros por MWh. A subida dos preços das matérias-primas energéticas está directamente ligada às disrupções na cadeia de distribuição provocadas pelo conflito no Médio Oriente.
A resposta do Governo. Na semana passada, o executivo de Luís Montenegro decidiu aplicar um desconto temporário no imposto sobre os produtos petrolíferos (ISP) de 3,55 cêntimos por litro, para mitigar o impacto nos consumidores. Miranda Sarmento disse não acreditar que a Comissão Europeia levante objecções, por se tratar de uma medida “extraordinária e temporária”. “Não sei se houve uma notificação formal, mas demos conhecimento à Comissão”, acrescentou. Bruxelas tem insistido para que Portugal retire apoios públicos no sector da energia e que eventuais medidas sejam limitadas a períodos de crise e direccionadas aos mais vulneráveis, em conformidade com as regras de concorrência e auxílios estatais.
E os outros países? O ministro antecipou que, se o conflito perdurar, outros Estados-membros terão de adoptar medidas semelhantes. “Se esta tendência continuar, os preços vão subir em todos os países da União Europeia e em todos os países do mundo, portanto, os países vão ter de responder”, afirmou.
O contexto político. A posição de Miranda Sarmento representa um recuo face às declarações que fez durante o período das tempestades, quando garantiu — contrariando até o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida — que Portugal manteria as contas equilibradas. A acumulação de choques parece ter forçado uma revisão dessa confiança, ainda que o Governo insista no compromisso com a disciplina orçamental e a redução da dívida pública.
⛽ A receita do ISP atingiu um máximo histórico de mais de 3,7 mil milhões de euros em 2025, com um aumento de 8%. O Governo concede esta segunda-feira um apoio de 3,55 cêntimos por litro de gasóleo, enquanto a gasolina fica excluída. Desde 2022, os apoios excecionais aos combustíveis já ultrapassaram 4,2 mil milhões de euros. • dn.pt
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🇩🇪🏛️ Verdes vencem eleições em Baden-Württemberg por margem estreita; SPD e FDP em colapso histórico
Os Verdes de Cem Özdemir venceram com 30,2%, superando a CDU (29,7%) por meio ponto percentual, e propuseram uma coligação que garante maioria de dois terços no Landtag.
A AfD quase duplicou o resultado para 18,8%, tornando-se a terceira força e conquistando dois círculos eleitorais directos, incluindo o reduto social-democrata de Mannheim I.
O SPD registou o pior resultado desde a Segunda Guerra Mundial (5,5%) e a FDP ficou abaixo dos 5%, perdendo toda a representação parlamentar regional.
A participação subiu para 69,6%, impulsionada pela estreia do voto aos 16 anos e pela mobilização em torno da crise da indústria automóvel.
Os Verdes venceram as eleições regionais em Baden-Württemberg com 30,2% dos votos, superando a CDU (29,7%) por uma margem de meio ponto percentual. Cem Özdemir, ex-ministro federal da Agricultura, deverá suceder a Winfried Kretschmann — que se retirou da política após 15 anos como ministro-presidente — à frente do governo do estado mais industrializado do sudoeste alemão. Özdemir propôs de imediato uma coligação com a CDU, que em conjunto garantem 112 dos mandatos do Landtag, uma maioria de dois terços.
Uma reviravolta nas sondagens. Em Outubro, a CDU liderava com cerca de dez pontos de vantagem. A inversão deveu-se sobretudo ao factor pessoal: 45% dos eleitores declararam que votariam directamente em Özdemir, considerado mais simpático e credível do que o candidato democrata-cristão, Manuel Hagel. A economia — em particular o futuro da indústria automóvel, pilar da região — foi o tema dominante da campanha, apontado por 29% dos eleitores como decisivo. Apesar de a CDU ser vista como mais competente nessa área, não conseguiu capitalizar a crise do sector, e a percepção negativa da sua actuação a nível federal, nomeadamente em matéria fiscal, pesou no resultado.
AfD duplica e conquista terreno operário. A AfD quase duplicou o seu resultado, passando de cerca de 10% em 2021 para 18,8%, e tornou-se a terceira força no parlamento regional. O partido conquistou dois círculos eleitorais por via directa, incluindo Mannheim I, tradicionalmente um reduto do SPD. O crescimento alimentou-se sobretudo de eleitores com dificuldades financeiras (41% deste segmento votou AfD) e de trabalhadores (37%). O líder regional Emil Sänze e o candidato principal Markus Frohnmaier tentaram explorar as tensões entre Verdes e CDU, sugerindo uma “maioria conservadora” que incluiria a AfD — hipótese que Hagel rejeitou de forma categórica.
SPD no pior resultado desde a Segunda Guerra Mundial. O SPD obteve apenas 5,5%, metade do que alcançara em 2021, escapando por pouco à exclusão do Landtag. A liderança social-democrata atribuiu a derrota ao voto táctico em favor dos Verdes, que terão captado cerca de 100 mil votos do SPD. Mas os números contam outra história: 59% dos eleitores consideram que o partido se preocupa mais com beneficiários de subsídios do que com trabalhadores de baixos rendimentos — opinião partilhada por quase metade dos próprios eleitores do SPD. O candidato principal, Andreas Stoch, anunciou a retirada, e a direcção do partido adiou decisões estratégicas para depois das eleições na Renânia-Palatinado.
FDP fora do parlamento. A FDP obteve 4,4%, falhando a barreira dos 5% e perdendo toda a representação no Landtag. O resultado agrava uma crise existencial que já incluiu a saída do Bundestag no início de 2025. O líder regional Hans-Ulrich Rülke demitiu-se. A nível federal, o líder Christian Dürr e a secretária-geral Nicole Büttner insistiram em manter o rumo, mas figuras como Marie-Agnes Strack-Zimmermann e Henning Höne exigiram publicamente uma mudança de direcção e responsabilização pela sequência de derrotas.
Jovens de 16 anos votaram pela primeira vez. A participação eleitoral subiu para 69,6%, impulsionada pela estreia do direito de voto aos 16 anos e pela possibilidade de votar em dois candidatos. Entre os primeiros eleitores, os Verdes foram o partido mais votado (28%), seguidos da CDU (16%) e da AfD (15%, mais nove pontos do que em 2021). As principais preocupações dos jovens foram a economia (21%) e o ambiente e clima (20%). Özdemir foi o candidato preferido por 50% dos jovens eleitores, contra 23% de Hagel.
E agora? Özdemir sinalizou que pretende um acordo de coligação que “represente o conjunto da região e não apenas as cores partidárias”. A CDU reconheceu a vitória dos Verdes e mostrou-se disponível para negociar, embora o resultado abaixo das expectativas levante questões internas sobre a liderança de Friedrich Merz e a estratégia do partido a nível federal. A AfD, agora principal força de oposição, tentará manter a pressão sobre a coligação verde-preta, enquanto SPD e FDP enfrentam crises existenciais que ultrapassam as fronteiras de Baden-Württemberg.
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🇪🇸🏛️ Crise interna no Vox: Ortega Smith denuncia direção e ex-líder juvenil do PP admite aproximação ao partido
Ortega Smith apresentou queixa à Agência Espanhola de Proteção de Dados contra a direção do Vox por alegada fuga de informação do seu processo de expulsão e anuncia recurso aos tribunais.
O Comité Executivo Nacional do Vox reuniu-se no Parador de Gredos para demonstrar unidade após as saídas de Ortega Smith e Antelo.
Carlo Angrisano, ex-secretário-geral das Novas Gerações do PP, demitiu-se, admitiu ter avisado dirigentes do Vox e não exclui filiar-se no partido.
As Novas Gerações do PP vão eleger em breve um substituto para Angrisano, cuja direção o acusa de não exercer funções há anos.
O Vox enfrenta uma crise interna em duas frentes: o processo de expulsão de Javier Ortega Smith, ainda porta-voz do partido na Câmara Municipal de Madrid, e a suspensão de José Ángel Antelo, enquanto a direção tenta projectar unidade numa reunião do Comité Executivo Nacional. Em paralelo, a demissão do ex-secretário-geral das Novas Gerações do PP, Carlo Angrisano, e a sua possível aproximação ao Vox acrescentam uma dimensão externa à turbulência.
A queixa de Ortega Smith. O vereador madrileno apresentou uma queixa à Agência Espanhola de Proteção de Dados contra o Comité Executivo Nacional (CEN) e o Comité de Garantias do Vox, acusando a direção de ter divulgado aos meios de comunicação detalhes do seu processo de expulsão, violando a confidencialidade. Ortega Smith afirmou que a direção lhe pediu para renunciar ao cargo de porta-voz, sob ameaça de expulsão, sem apresentar motivos claros. O processo ainda não é definitivo: esta semana será formalizado um recurso de reposição junto do Comité de Garantias, seguido de um recurso de alçada ao CEN. Se os mecanismos internos falharem, Ortega Smith anunciou que recorrerá aos tribunais, considerando o procedimento “arbitrário e sem garantias”.
Críticas à liderança de Abascal. Ortega Smith denunciou uma “obsessão” na cúpula do partido com a possibilidade de alguém lhes fazer sombra, afirmando que apenas “quatro pessoas” controlam o Vox. Criticou a falta de independência do Comité de Garantias — cujos membros são, segundo ele, nomeados e pagos pelo CEN — e lamentou que Santiago Abascal o tenha demitido sem lhe dar qualquer explicação. “Nunca recebi uma justificação para a minha expulsão”, disse, apelando ao líder do partido para que “dê a cara”. Ortega Smith comparou a sua situação à de Antelo, em Múrcia, e rejeitou rumores sobre a criação de uma organização paralela ao Vox, classificando-os como “de psiquiátrico”.
Reunião em Gredos para mostrar unidade. Em plena campanha eleitoral em Castela e Leão, o CEN reuniu-se no Parador de Gredos — a primeira sessão desde a expulsão de Ortega Smith e a suspensão de Antelo. Nenhum dos dois esteve presente: Ortega Smith foi substituído por Júlia Calvet e Antelo está inabilitado para exercer cargos no partido. Na reunião, poderá ter sido decidido o substituto de Antelo como vocal número 1 do CEN. Participaram também membros do Comité de Acção Política e os porta-vozes nacionais do Vox.
A saída de Angrisano do PP. Num desenvolvimento paralelo, Carlo Giacomo Angrisano, ex-secretário-geral das Novas Gerações do Partido Popular, revelou que comunicou a sua demissão a dirigentes do Vox antes de a tornar pública. Angrisano não exclui filiar-se no Vox — “talvez”, admitiu —, embora tenha esclarecido que, por agora, está fora de qualquer partido. Justificou a saída com divergências políticas com o rumo do PP, criticando o partido por querer “pactuar com forças que pretendem dividir o país”, e defendeu líderes da direita internacional como Donald Trump, Javier Milei e Giorgia Meloni.
Reacções cruzadas. Ignacio Garriga, vice-presidente e secretário-geral do Vox, saudou a decisão de Angrisano como “coerente” e elogiou a sua “clarividência” ao reconhecer o Vox como a melhor opção. Garriga apelou a que outros militantes descontentes nos seus partidos façam “um exercício de coerência” e saiam. Do lado do PP, a direção das Novas Gerações desvalorizou a saída, afirmando que Angrisano não exercia funções há vários anos e que “perfis como o seu são dispensáveis”. A organização juvenil convocará em breve uma Junta Directiva para eleger o seu substituto, entre os membros que participaram no congresso que elegeu Bea Fanjul como presidente.
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🇮🇹 🗳️ Meloni acusada de querer mudar a lei eleitoral italiana para se manter no poder
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, está a ser acusada pela oposição de tentar manipular as próximas eleições gerais de 2027 através de uma reforma controversa do sistema eleitoral. O Partido Democrático, principal força de centro-esquerda, diz que o governo está a “mudar as regras do jogo” por recear uma derrota com as regras atuais.
O que muda com a proposta?
Itália passaria do atual sistema misto (”Rosatellum”) para um sistema totalmente proporcional com prémio de maioria: qualquer coligação que obtenha mais de 40% dos votos teria automaticamente garantida a maioria parlamentar.
Se nenhuma coligação atingir os 40%, haveria uma segunda volta entre os dois blocos mais votados, desde que ambos superem os 35%.
O limiar de 3% para entrar no parlamento manter-se-ia.
Seria eliminado o voto preferencial, retirando aos eleitores a possibilidade de escolher candidatos individuais — algo que contradiz posições anteriores de Meloni a favor dessa liberdade de escolha.
Porque é que isto importa agora? Nas eleições de 2022, o sistema atual beneficiou Meloni porque a oposição de esquerda não se conseguiu unir. Para 2027, uma aliança alargada à esquerda parece mais provável e poderia impedir a coligação de direita de obter maioria, sobretudo graças a vitórias no sul do país. A reforma parece, assim, desenhada à medida do cenário político atual.
Que riscos apontam os especialistas? Nicola Lupo, professor de direito público na Universidade Luiss Guido Carli, em Roma, alertou que a lei poderia produzir resultados inesperados, como maiorias diferentes na Câmara dos Deputados e no Senado, comprometendo precisamente a estabilidade governativa que pretende garantir. A proposta foi já apresentada às duas câmaras do parlamento italiano, onde o debate vai começar.
Fonte: euronews.com
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E GOVERNANCE
A Hyundai desenvolveu um robô de combate a incêndios capaz de operar a temperaturas até 800 graus Celsius (1472 graus Fahrenheit). O equipamento foi concebido para atuar em ambientes extremos onde as condições térmicas impedem a intervenção humana direta, representando um avanço tecnológico no setor da segurança e resposta a emergências.

