🇮🇷 EUA e Irão trocam ataques e o cessar-fogo desfaz-se
Segunda noite de bombardeamentos dos EUA no Irão; Teerão retaliou com drones e mísseis contra bases americanas no Kuwait, Barém e Catar. Petróleo dispara, bolsas despencam
Edição número 3.91, novamente a duas mãos. O assunto do dia é o fim do cessar-fogo na guerra dos EUA ao Irão. Amanhã temos um exclusivo: Estudo da imprensa em 2026 (1/2). Colunistas à lupa: a posição política, os valores, a retórica. A não perder
🇮🇷 EUA e Irão trocam ataques e o cessar-fogo desfaz-se
Segunda noite de bombardeamentos dos EUA no Irão; Teerão retaliou com drones e mísseis contra bases americanas no Kuwait, Bahrain e Catar.
O petróleo dispara e as bolsas europeias caem; Trump deu por terminado o cessar-fogo de 17 de junho.
Trump recusa negociar e ameaça alvos civis; Teerão responde que não cede.
Os Estados Unidos atacaram cerca de 90 alvos militares no Irão na madrugada de 9 de julho. Foi a segunda noite seguida de bombardeamentos. O Ministério da Saúde iraniano contabilizou pelo menos 14 mortos e 78 feridos nos ataques de 8 e 9 de julho, distribuídos por cinco províncias.
Teerão respondeu contra o Golfo. Drones e mísseis atingiram bases americanas no Kuwait, no Bahrain e no Catar. O exército do Kuwait disse ter repelido “ataques de mísseis e drones hostis”. Um responsável militar americano, sob anonimato, afirmou à AFP que os ataques iranianos não causaram vítimas nem danos significativos.
O que desencadeou. Trump declarou na quarta-feira que o cessar-fogo assinado a 17 de junho “já não se mantém”. A justificação: ataques iranianos a navios mercantes ao largo de Omã e no Estreito de Ormuz. O CENTCOM disse que os bombardeamentos visavam “degradar” a capacidade iraniana de ameaçar a navegação no estreito, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás mundial.
Os alvos americanos foram sistemas de defesa aérea, arsenais de mísseis e drones, meios navais e infraestruturas logísticas ao longo da costa. A imprensa estatal iraniana relatou explosões em Bushehr — onde fica o complexo nuclear — e nas cidades portuárias de Bandar Abbas, Chabahar e Sirik.
Os mercados. O Brent subiu 5% na quarta-feira e ultrapassou os 78 dólares por barril, o valor mais alto desde o cessar-fogo do mês anterior. O WTI aproximou-se dos 75 dólares. O Ibex 35 caiu quase 3%, para perto dos 19.000 pontos — a descida acelerou depois de Trump ameaçar suspender o comércio com Espanha, por Madrid recusar aumentar o gasto em defesa para 5% do PIB.
As reacções. Trump, na cimeira da NATO em Ancara, publicou vídeos de explosões no Irão: “Isto é em retaliação pelo bombardeamento de navios ontem pelo Irão. Se voltar a acontecer, vai ser muito pior!” Ameaçou atingir centrais elétricas e unidades de dessalinização e tomar a ilha de Kharg, por onde saem 90% das exportações de crude iraniano. Sobre os líderes de Teerão, disse: “São escumalha.”
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, apoiou os ataques. “Penso que é absolutamente crucial que os Estados Unidos reajam com firmeza”, disse. O chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, acusou o Irão de ter “violado os seus próprios compromissos” ao atacar navios em águas de Omã.
Teerão não recuou. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, escreveu na rede social X: “a era da intimidação e da extorsão acabou. Não cedemos.” O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, respondeu que as palavras de Trump “não são sinal de força, mas sim a admissão do fracasso”.
E agora? Trump ameaçou retaliar com ataques “20 vezes mais fortes”. Disse também que os combates terminariam “muito rapidamente” e que não pretende negociar — o diálogo com o Irão é, nas suas palavras, uma “perda de tempo”. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, interrompeu a presença no funeral de Ali Khamenei, no Iraque, e regressou a Teerão.
Direita aprova em comissão a proibição de cobrir o rosto, satisfazendo o Chega
PSD retirou o próprio texto e votou o do Chega, reenquadrado como medida de segurança. Falta a votação final global e a eventual intervenção do Presidente e do Tribunal Constitucional.
O que foi votado. PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS aprovaram esta quinta-feira na especialidade o projeto que proíbe a ocultação do rosto em espaços públicos. A votação decorreu na Comissão de Assuntos Constitucionais. PS, Livre e PCP votaram contra. Segundo a RTP Notícias, o alinhamento repetiu o da generalidade, em outubro de 2025.
A manobra da manhã. Na abertura da reunião, o vice-presidente da bancada do PSD, António Rodrigues, anunciou a retirada do projeto de substituição social-democrata. Justificou-a com o texto que o Chega apresentara na véspera, que considerou uma aproximação política relevante. O diploma aprovado é, no fim, o do Chega — reformulado.
O que mudou no texto. O título passou a "proíbe a ocultação do rosto em espaços públicos por razões de segurança e de ordem pública". A pena de prisão até três anos, prevista na versão inicial para quem coagisse alguém a cobrir o rosto, caiu. Entrou uma contraordenação: coima de 150 a 750 euros por negligência, de 400 a 3.000 euros por dolo. O Chega acrescentou a idade e a origem à lista de motivos de coação já cobertos, ao lado do género e da religião.
Os dois discursos da direita. O PSD defendeu que o diploma responde a segurança no espaço público e que deixou de ser "a lei das burcas" para ser um diploma sobre segurança. Mas esse enquadramento foi contestado por outros partidos e entidades, que continuam a ver no texto uma leitura identitária e religiosa do problema. À direita, o enquadramento foi outro. Rui Rocha (IL) acusou de "cobardia moral" quem reduz o tema a segurança e disse, segundo o Jornal de Notícias, que o que está em causa é "a dignidade das mulheres". Madalena Cordeiro (Chega) e João Almeida (CDS) falaram de opressão feminina e de símbolos religiosos.
A oposição. PS, Livre e PCP classificaram o diploma de discriminatório. Pedro Delgado Alves (PS) disse, citado pela CNN Portugal, que "não pode ser ignorado o propósito islamófobo que estava patente na exposição de motivos". Paulo Muacho (Livre) falou em tentativa de gerar um pânico moral sobre uma pretensa invasão islâmica. A Amnistia Internacional Portugal condenou a aprovação como inconstitucional e discriminatória e, segundo a TSF, ponderou apelar ao Presidente da República e ao Tribunal Constitucional.
A aritmética. As forças de direita somam 160 deputados — acima dos 116 da maioria absoluta. A esquerda perdeu capacidade de travar o diploma em plenário. Falta a votação final global, ainda sem data confirmada.
O que a lei já permitia. A ocultação do rosto não era território sem regra. A Lei da Segurança Interna de 2008 já autoriza as forças de segurança a exigir identificação de quem tenha o rosto coberto perante suspeita de crime. O diploma aprovado cria uma proibição geral onde antes havia poder de identificação pontual.
O ponto jurídico em disputa. Constitucionalistas notam que a deslocação do fundamento para a segurança e a substituição da prisão por coima são os fatores que o teste de proporcionalidade do artigo 18.º da Constituição costuma valorizar. Em sentido contrário à leitura da Amnistia, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos validou a proibição francesa em S.A.S. c. França, em 2014 — embora com base no argumento do "viver juntos", não na segurança pública, que o tribunal rejeitou como fundamento suficiente para uma proibição geral. O terreno é disputado, não fechado num só sentido.
O precedente recente. A convergência entre PSD, CDS e Chega em matérias identitárias já vinha a ser ensaiada. A 23 de junho, PSD e CDS propuseram subir para dois anos a residência exigida a extracomunitários no acesso à Prestação Social Única, com o Chega a condicionar o apoio a restrições mais duras. O bloco de direita opera como maioria funcional sobre temas de fronteira social, sem acordo formal de governo.
O que falta. Aprovado o texto na especialidade, segue para votação final global. Depois, cabe ao Presidente da República promulgar, vetar politicamente ou requerer fiscalização preventiva ao Tribunal Constitucional.
Notas
Fontes de verdade consultadas: 27
Outros temas do dia
Crise de água em Almada escala para confronto político entre PS e PSD
Cerca de 1.500 residentes manifestaram-se em Costa de Caparica na quarta-feira a exigir a demissão da presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros. Os protestos seguem-se à declaração de uma situação de alerta pelo município, motivada por cortes frequentes no abastecimento de água sem prazo de resolução definido.
A autarca apontou desvios na rede de distribuição e aumento do consumo como causas principais do problema. Do lado do governo, o PSD acusou a câmara, gerida pelo PS, de incompetência na gestão do serviço. O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, respondeu criticando a Ministro do Ambiente por declarações que considerou enganosas sobre a situação em Almada.
A crise instalou-se num período de maior consumo e com reservas baixas, mas a sua gestão tornou-se rapidamente matéria de disputa entre partidos. Para os residentes que saíram à rua, a discussão política não resolve o problema imediato: água a faltar em casa, sem data para normalizar.
Governo leva nova lei do arrendamento a Conselho de Ministros esta quinta-feira
O executivo prevê discutir em Conselho de Ministros uma revisão do Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) que inclui medidas para descongelar rendas antigas e facilitar processos de despejo. A proposta deverá ser apresentada esta quinta-feira.
As rendas congeladas representam, segundo dados citados pelo ECO, cerca de 16% do mercado de habitação — uma fatia que os proprietários afectados descrevem há anos como uma injustiça. A revisão do regime de arrendamento é apresentada pelo governo como necessária para revitalizar o mercado e responder às queixas dos senhorios. O impacto sobre os inquilinos abrangidos ainda não está publicamente detalhado.
🔥 França activa terceira célula de crise contra o calor em dois meses
Sébastien Lecornu preside na sexta-feira, 10 de julho, a uma célula interministerial de crise sobre a nova vaga de calor. A reunião é às 10 horas, no Ministério do Interior.
É a terceira vez em menos de dois meses que o governo francês activa este mecanismo. O primeiro-ministro já liderou reuniões idênticas durante a vaga anterior.
O país está a arder em paralelo. 72 departamentos estão em alerta laranja, com o calor a alastrar a norte e leste. Na quarta-feira registaram-se mais de 325 focos de incêndio, segundo o ministro do Interior, Laurent Nunez. Na Drôme e no Indre lavra um dos maiores fogos da história local.
A Météo-France prevê nova subida das temperaturas no domingo. A canícula deverá durar até terça-feira.
🇮🇹 Meloni admite corrida ao Quirinal em 2029
Giorgia Meloni revelou pela primeira vez a ambição de suceder a Sergio Mattarella na presidência da República italiana em 2029. A confissão surgiu numa entrevista à Rete 4, canal próximo do governo.
Meloni preside ao Conselho de Ministros desde outubro de 2022 e lidera o Fratelli d’Italia. É a primeira vez que assume publicamente o objectivo de chegar ao Quirinal.
Parlamento Europeu reenvia lei de detecção de abuso infantil ao Conselho após excluir encriptação
O Parlamento Europeu aprovou uma versão alterada da lei que obrigaria empresas tecnológicas a rastrear conteúdos de abuso sexual de menores nas suas plataformas. A versão adoptada exclui os serviços com encriptação ponta-a-ponta do regime de digitalização e foi reenviada ao Conselho da UE.
A votação encerra um percurso turbulento: o texto tinha sido rejeitado em março, depois de a presidente do Parlamento, Roberta Metsola, ter pressionado por uma segunda votação. A exclusão da encriptação — que cobre serviços como o Signal ou o WhatsApp — foi criticada por defensores da protecção da infância como uma lacuna significativa. O dossiê regressa agora ao Conselho sem que o debate entre privacidade e protecção de menores esteja resolvido.
UE aprova directiva que permite às vítimas de abuso infantil denunciar crimes até aos 50 anos
O Parlamento Europeu chegou a acordo sobre uma nova directiva que estende o prazo de denúncia para vítimas de abuso sexual na infância até aos 50 anos de idade. A medida define um novo padrão mínimo comum para os Estados-membros, com foco explícito nos direitos dos sobreviventes.
A aprovação ocorre no mesmo dia em que o Parlamento votava separadamente a lei de digitalização de conteúdos de abuso — dois instrumentos distintos que percorrem vias legislativas diferentes. A directiva sobre os prazos de prescrição responde a uma reivindicação recorrente de associações de sobreviventes, que argumentam que muitas vítimas só conseguem denunciar décadas depois dos factos.
Bruxelas coloca restrições comerciais a colonatos israelitas na mesa
A Comissão Europeia está a explorar medidas para limitar as importações provenientes de colonatos israelitas ilegais na Cisjordânia. As opções em estudo incluem tarifas aduaneiras, licenciamento de importação e proibições totais — um leque de instrumentos que vai mais longe do que a posição pública anterior de Bruxelas.
A iniciativa surge na sequência de apelos de ministros dos Negócios Estrangeiros de vários Estados-membros para que o comércio com os colonatos passe a ser tratado como incompatível com o direito internacional. A Comissão não anunciou ainda uma decisão final nem um calendário para a adoptar.
Alemanha fecha acordo com os EUA para compra de mísseis Tomahawk
O chanceler alemão Friedrich Merz anunciou que os Estados Unidos aprovaram a venda de mísseis de cruzeiro Tomahawk à Alemanha. Os mísseis serão estacionados em território alemão e o acordo é enquadrado por Berlim como resposta a uma lacuna nas capacidades de defesa do país.
O anúncio coincide com o contexto de pressão crescente dentro da NATO para que os aliados europeus reforcem as suas capacidades militares autónomas. A aquisição posiciona a Alemanha entre os países da aliança com armamento de longo alcance estacionado em solo europeu.
Grécia contra venda de F-35 à Turquia; Trump mantém-se indeciso
O ministro da Defesa grego, Nikos Dendias, manifestou publicamente a discordância de Atenas relativamente à eventual venda de caças F-35 à Turquia pelos Estados Unidos. Dendias argumentou que tal decisão desestabilizaria o Mediterrâneo Oriental e questionou se corresponderia aos interesses americanos, tendo em conta as tensões entre os dois países da NATO.
O presidente turco Erdogan respondeu criticando a oposição da Grécia — e também de Israel — à aquisição, numa troca de declarações que ocorreu à margem da cimeira da NATO. Donald Trump declarou-se ainda indeciso sobre a venda. Do lado do Congresso norte-americano, vários legisladores de origem greco-americana, incluindo republicanos, instaram a administração Trump a bloquear o negócio, invocando as acções de Ancara no Mediterrâneo e o seu afastamento anterior do programa F-35.
Radar político
A crise dos exames nacionais continua a dominar a política interna, com o Ministério da Educação no centro de pressões cruzadas e o primeiro-ministro a acumular críticas por ausência pública.
‣‣‣‣‣‣‣ O PS anunciou que quer ouvir o ministro da Educação, Fernando Alexandre, no parlamento sobre o processo de classificação dos exames nacionais, e estuda a criação de uma comissão de inquérito. O líder parlamentar socialista admitiu que é difícil que as audições aconteçam em breve. Alexandre tem admitido erros no processo, garantindo em paralelo que tudo será resolvido, e tem destacado o mecanismo de verificação do EduQA como resposta institucional à contestação. A polémica, iniciada em junho com uma investigação interna que concluiu não existir enviesamento nos exames, escalou nas semanas seguintes com críticas de professores, sindicatos e partidos, e a subsequente identificação de falhas pela IGEC.
‣‣‣‣‣‣ O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, classificou como "insensibilidade atroz" o facto de o primeiro-ministro Luís Montenegro não ter dirigido "uma palavra de tranquilidade e confiança" às famílias afectadas pelas falhas nos exames.
‣‣‣‣‣ Montenegro esteve esta semana na cimeira da NATO em Ancara, onde anunciou que Portugal deverá atingir 3,1% do PIB em despesas de defesa ainda em 2026, incluindo reforço de apoio à Ucrânia através do programa PURL.
‣‣‣‣ Em França, Marine Le Pen surge à frente nas sondagens para a primeira volta das presidenciais de 2027, com 36% das intenções de voto — quatro pontos acima de há duas semanas — após o tribunal de recurso de Paris ter confirmado a sua condenação mas reposto a elegibilidade.
‣‣‣ No Reino Unido, abriram esta quinta-feira as candidaturas à liderança do Partido Trabalhista para substituir Keir Starmer, que renunciou em junho. Andy Burnham formalizou a sua candidatura e segue sem oposição declarada no processo.
‣‣ Em Espanha, a Unidade Central Operativa da Guarda Civil implicou o antigo chefe de gabinete de Pedro Sánchez, Juan Manuel Serrano, na contratação alegadamente "estratégica" de Leire Díez nos Correios. O PP exigiu a demissão de Sánchez. Em paralelo, a Fiscalía de Madrid apresentou as suas conclusões no processo contra Begoña Gómez, pedindo a absolvição com o argumento de que "sem delito não há autor".
‣ Ursula von der Leyen anunciou que vai doar a um museu militar em Bruxelas a pistola personalizada que recebeu do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan durante a cimeira da NATO em Ancara, onde vários líderes europeus receberam armas de fogo gravadas como oferta protocolar.




