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Estudo da imprensa em 2026 (2/2). O viés noticioso, medido hora a hora

Acompanhámos as homepages de 21 meios para ver o que destacam, como reescrevem títulos das notícias e como tratam cada protagonista político.

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Paulo Querido
jul 15, 2026
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Índice

  • Nota de introdução

  • Key findings

  • A montra de cada casa

  • Quem é citado por cada meio — e quem é ignorado

  • O gesto de reescrever

  • O tratamento das entidades — onde vive o viés direcional

  • A gramática do poder: agentes, alvos e o gesto da montra

  • Conclusão

  • Como isto foi feito

Claude Sonnet com Paulo Querido e inspiração de Jacques Tardi

Nota de introdução

Na primeira parte deste estudo da imprensa em 2026 mapeei a opinião publicada: 215 colunistas classificados no espectro político a partir dos seus próprios textos, que foram analisados noutras três perspetivas: em escalas de valores (papel do Estado na economia, autoridade e liberdades, religião, relação com a União Europeia, ambiente, elitismo-populismo, e outros), em temperatura retórica e em declinismo (numa private joke que os dados não confirmaram, há os apocalípticos e depois há o Pacheco Pereira).

Num retrato breve o comentariado português é homem, elitista, pessimista, pró-União Europeia, pró-mercado e avesso ao populismo. O comentador de direita típico em Portugal é um liberal-conservador europeísta que não põe em causa o quadro constitucional. A opinião publicada é o espaço mediático onde o eleitorado anti-establishment está menos representado — menos do que no parlamento, muito menos do que nas redes sociais.

Até certo ponto, a imprensa tem funcionado como um muro contra a vaga populista. Mas na escolha dos seus colunistas apresenta um “pecado” de calibre semelhante — que, aliás, ressurge nesta segunda parte quando olhamos para as características editoriais mais distintivas: hipervaloriza o declinismo, a sensação de que está tudo mal, de que caminhamos inexoravelmente para o fim — o que muito contribui para asfaltar a auto-estrada através da qual se movem as figuras oportunistas que usam o populismo para seu próprio benefício eleitoral.

Esse mapa da primeira parte do estudo responde a uma pergunta — que vozes cada jornal ou televisão escolheu para opinar — mas deixa outra inteira por responder: e as notícias? O viés que interessa medir não é apenas o dos textos assinados; é o das escolhas editoriais anónimas de todos os dias — que histórias abrem o site, que títulos se escrevem, quem aparece neles e como é tratado.

Sempre quis fazer este estudo, mas só agora convergiram os elementos necessários para além da vontade: a capacidade técnica (três máquinas dedicadas à tarefa, incorporação da IA nos estádios preliminares — e cabe aqui um agradecimento especial aos assinantes apoiantes, cujos contributos financeiros tornaram possível esta tarefa), o momento e, acima de tudo, uma metodologia capaz de produzir uma medida comparativa útil.

É fácil analisar um conjunto de textos para encontrar padrões de escrita, de posicionamento intelectual, até de intenções. Os autores são (ou assim se espera) vozes distintivas e livres na escrita, produzindo peças muito diferentes na abordagem, nos pressupostos e no alcance; pelo contrário, os textos jornalísticos, sejam notícias, reportagens ou peças desenvolvidas, cumprem requisitos de escrita, de formulação. Uma notícia do dia é uma notícia do dia — na grande maioria das vezes, é publicada pelos vários meios (se for uma notícia internacional, será publicada em milhares de sites), o que inutiliza a diferenciação, e por natureza (reforçada por compromissos éticos) é produzida numa grelha semi-rígida que procura destituí-la das nuances estilísticas e sub-entendidos que caracterizam os textos de opinião e análise.

A (esmagadora?) maioria dos consumidores de imprensa não está familiarizado com esta diferença entre os dois géneros, o que é adubo para muitos equívocos sobre os meios (e o jornalismo, que desde sempre convive com esta iliteracia — e pouco ou nada fez para a contrariar, mas isso são contas antigas e que aqui não tem cabimento).

Mas, como diriam o Claude ou o ChatGPT, essa diferença muda tudo. Não posso simplesmente aplicar a análise de texto nem as grelhas de avaliação usadas para medir artigos de colunista (opinião ou análise).

Após demorada reflexão (anos, na realidade), concluí por uma primeira aproximação, que será tanto rudimentar quanto eficaz. Medi três coisas:

  1. o desvio entre a apresentação natural da notícia, ou seja, o título com que a unidade saiu no corpo do jornal, e a forma como foi chamada à primeira página, ou seja como foi destacada pelos editores responsáveis

  2. onde é possível, e é possível em 70 a 80% dos casos, o desvio entre os títulos escritos por cada jornal e o título da Lusa, a agência que tem uma maior responsabilidade ética e formal e como tal serviu de régua para medir esse desvio

  3. a temperatura das palavras usadas junto dos atores políticos

Para isto, montei um sistema de escrutínio das homepages e das seções de política dos meios online. Não é perfeito em primeiro lugar porque os jornais portugueses dificultam muito a sua leitura — é incompreensível e contra-natura, eu sei, mas é a realidade e eu não a sei explicar — e em segundo lugar porque vários deles assentam em sistemas de publicação com muitas falhas de resposta. Numa estimativa, creio ter conseguido recolher entre 75% e 90% das amostras pretendidas — suficiente para ancorar esta primeira leva de conclusões, mas um score a melhorar no futuro.

Assim: desde 11 de Junho, este sistema fotografa de hora a hora as páginas principais (e as secções de política) de 21 meios portugueses — dos generalistas (Público, Observador, Expresso, JN, DN, CM) às rádios e televisões (TSF, Renascença, RTP, SIC, CNN Portugal, CMTV, Now), da imprensa económica (ECO, Negócios, Jornal Económico) aos semanários (Sábado, Visão, Sol) — mais a agência Lusa, que serve de régua, como explicarei. Em cada fotografia, o sistema regista todas as notícias visíveis, a sua posição na página, o tamanho que ocupam e o título com que são apresentadas. Ao fim de um mês: cerca de 68 mil apresentações de notícias, correspondentes a mais de 40 mil peças distintas.

Estes dados permitem a medição já apresentada e que recordo sinteticamente: o que cada meio escolhe destacar (e por quanto tempo), como reescreve os títulos entre a peça e a “montra”, e como trata cada protagonista político.

Key findings

Selecção e destaque (a montra)

  • Quanto de cada homepage é política varia mais de 2:1 — TSF (9,9%), RTP (8,8%) e Observador (8,3%) no topo; SIC Notícias (4,2%), JN (4,5%) e Renascença (4,7%) no fundo.

  • Onde a política não domina, é diluída: CMTV enche 41% da montra com sociedade/crime/justiça; a imprensa económica dá 29–35% à economia; o Público destaca-se na cultura (15%).

  • Dois modelos de destaque: o Público insiste (saliência política média 1,29, o dobro do segundo), o Observador roda (0,60, mas 365 peças políticas contra 178 do Público).

Quem cada meio titula

  • O Observador é o que, em proporção, menos titula Montenegro (10,7%) — apesar de liderar em números absolutos.

  • A Renascença titula o partido (Chega, 23,5%) e ignora o líder; a CNN Portugal faz o inverso (titula Ventura).

  • A imprensa económica cobre o Governo (Negócios, 43,8%) e ignora o resto do sistema — o ECO nunca mencionou o PCP; o JE quase nunca titula o Presidente.

  • A Sábado é a mais “sistema partidário” (lidera PSD, Parlamento e PCP; é a que menos titula o Governo).

Reescrita de títulos (peça → homepage)

  • Taxas muito díspares: Observador 43%, ECO 28%, TSF 22%, Público 14%; JN, RTP, DN e CM quase não reescrevem (1–2%).

  • Carga do gesto: CNN Portugal 54% (quase tudo apelo ao clique); Observador 29% (único a praticar todo o repertório); a TSF reescreve muito mas quase sem carga (9%).

  • As reescritas não têm direcção partidária sistemática — os saldos benefício/prejuízo são próximos de zero, mesmo no Observador. É gesto de intensidade, não de campo.

Tom por entidade (desvio face à Lusa)

  • Célula mais extrema da matriz: Negócios com Montenegro (−0,50; desvio −0,83), quando o ECO o titula a +0,44. No geral os económicos são mais brandos que a agência — a excepção Negócios destaca-se por isso.

  • O Público é o mais duro com toda a direita, e mais duro com o PSD (−0,57) do que com o Chega (−0,34).

  • O Observador trata o Chega como a Lusa (−0,46 vs −0,52) — ao contrário do que a sua secção de opinião faria prever.

  • O Observador é o meio que mais resiste ao favor a Seguro (−0,53), quando o Presidente é a figura mais bem tratada no global (+0,35).

Gramática de papéis (agente vs paciente)

  • A oposição pequena existe quase só como agente (IL 100%, BE 97%, PCP 88%); o poder é alvo (Governo/PS 65% de agência, Chega 61%).

  • O gesto de homepage endurece com quem governa: Montenegro perde 0,19 de valência entre a peça e a montra; Ventura 0,11; PSD 0,09.

Conclusão transversal

  • O viés tem duas moradas: na opinião é declarado e estrutural; nas notícias é mais fino e menos partidário — e nem sempre no sentido que a reputação de cada casa faria prever.

Além deste texto, os dados foram compilados numa apresentação interativa da qual apresento uma das quatro vistas na imagem abaixo. O link para a apresentação encontra-se mais abaixo na parte reservada a assinantes.

Vamos aos resultados e sua análise, agora na parte reservada aos assinantes que apoiam a VamoLáVer. Se o leitor tem uma subscrição gratuita, pode beneficiar de uma campanha criada para este dossiê duplo, dado o seu interesse público. Usando este link, beneficia de um desconto de 25% sobre a assinatura — 5,63 euros mensais / 56,25 euros anuais em vez de 7,5/75, uma campanha válida até dia 20, para incluir a segunda parte.

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