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Estudo da imprensa em 2026 (1/2) ⦿ Colunistas à lupa: a posição política, os valores, a retórica

O perfil padrão do colunista da imprensa portuguesa: homem, elitista, pessimista, pró-União Europeia, pró-mercado e avesso ao populismo.

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Paulo Querido
jul 10, 2026
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O perfil típico, o retrato-robô, o padrão do colunista da imprensa portuguesa cabe numa frase.

Escrita por mim é simples: homem, elitista, pessimista, pró-União Europeia, pró-mercado e avesso ao populismo.

Escrito pelo modelo Sonnet 5 é mais completa: “o comentador português típico é um homem, elitista, europeísta, constitucionalista e declinista, que inclina o texto sobretudo por escolha lexical e enquadramento — não por populismo nem por ataque pessoal, mecanismos residuais e associados aos extremos.”

Estas frases-sensação são boas para títulos, pessoas com horror à complexidade e adeptos das “perceções”. Mas esgotam-se nesses espaços. No século dos dados e da informação enriquecida, podemos muito facilmente apresentar o corpo de mais de 200 colunistas de onze órgãos de comunicação social usando detalhes bem mais úteis e verdadeiros.

Porque na verdade não são todos homens: há aproximadamente uma mulher por cada três homens e meio.

E se há uma estranha unanimidade, até entre esquerda e direita, no que concerne ao elitismo, já no eixo de valores estado <> mercado se consagra uma divisão normal entre os campos.

E acontece que as mulheres colunistas são mais de esquerda que os homens.

⦿ E lá se espatifou a perceção do retrato-robô. ⦿

Dados estes exemplos, mergulhemos nesta primeira parte do estudo da imprensa em 2026: vamos ver os colunistas à lupa, quem são, onde escrevem, o que escrevem, que valores defendem com que competências de retórica.

O documento que se segue é a análise de um colossal conjunto de dados (primeira recolha teve 111.000 documentos), que foi tratado e está também disponível numa página interativa que permite estreitar pesquisas e até “descer” aos pormenores de cada um dos 215 colunistas (link mais à frente, só para assinantes apoiantes). A leitura pode ser feita sequencialmente (melhor entendimento, mais exigente em tempo), ou só nos capítulos de maior interesse, ou só com uma vista de olhos pelos gráficos, ou indo diretamente à página interativa para a descoberta personalizada.

Para o leitor (ainda) mais apressado, ou não-tão-interessado-assim, os key findings podem chegar:

  • Equilíbrio agregado, mas ilusório: 44% esquerda / 46% direita / 10% centro — nenhuma das duas bolhas domina a contrária.

  • Modelos editoriais opostos: direita concentra-se em painéis homogéneos (Observador, Sol, imprensa económica); esquerda dispersa-se em painéis mistos dos generalistas (Público, DN, JN, Visão).

  • Assimetria nos extremos: direita tem mais autores extremos (30 vs 22), mas esquerda tem o ponto mais extremo do painel inteiro (Manuel Loff, −5.2).

  • Economia e costumes movem o eixo geral (correlação 0.96 e forte, respetivamente); populismo e rural-urbano são independentes dele (0.08 e 0.01) — validação interna do método.

  • Sub-representação do populismo: praticamente ausente do comentariado, apesar de valer um quarto do eleitorado nas urnas.

  • Declinismo é transversal: 92% dos autores (197/215) escrevem em registo de decadência sobre Portugal, mais intenso nos extremos do que no centro.

  • Retórica intensa correlaciona com distância do centro: quem escreve mais “quente” está mais longe do centro político; só 1 autor em 215 é retoricamente neutro.

  • Mecanismos retóricos têm classe: os quatro grandes (palavras carregadas, spin, enquadramento, negatividade) são universais e sem cor política; os minoritários (omissão, falsa equivalência, ataque pessoal) têm assinatura de campo.

  • Agenda dominada por meta-política: democracia/populismo é tema central em 63% dos autores — mais do que qualquer política pública concreta.

  • Consenso raro em torno de Seguro (39% de apoio transversal, quase sem oposição relevante) vs. Chega como alvo mais partilhado (68%, com críticos centristas incluídos) vs. Montenegro dividido pela linha partidária.

  • Desequilíbrio de género duplo: só 23% do painel é mulher, e quanto mais à direita a casa, menos mulheres; mulheres inclinam-se claramente à esquerda (67%) e homens à direita (52%) — o equilíbrio agregado do estudo assenta sobre uma divisão de género.

Introdução

Isto começa com uma explicação necessária para se entender o alcance do estudo.

Em 17 e 27 de setembro de 2024 — há quase dois anos — publiquei em duas partes um estudo sobre o viés político dos artigos de 157 colunistas que escreviam regularmente sobre política em dez meios portugueses. O objetivo era encontrar resposta para uma pergunta simples que nunca tinha sido aprofundada com dados e análise científica: quem escreve a opinião publicada na imprensa portuguesa e de que zona do espectro político escreve?

As respostas habituais são impressionistas — o Observador é de direita, o Público é de esquerda, e por aí fora. Algumas dessas perceções confirmaram-se na altura. Outras não resistiram à medição. Mas no geral confirmou-se a teoria de que a direita comandava a opinião publicada neste país.

Esse estudo conheceu um grande sucesso na sua escala. Nos meses que se seguiram, muitos me encorajaram a repeti-lo e a estendê-lo ao que se intui como mais influente no espaço público: a classe comentadora que preenche todos os horários de todas as televisões.

Percebo o interesse, partilho do interesse. Mas não encontrei nem estímulo, nem ângulo, nem capacidade técnica para “descer” às televisões. E quanto ao resto, o que aprendi no processo de fabricação do estudo em 2024 deixou-me com zero apetência para repetir a dose. Não me refiro aos pormenores técnicos, à metodologia, aos modelos, nada disso. Refiro-me ao apurado no estudo. A opinião publicada não muda de um ano para o outro. Não muda, sequer, de um ciclo político para o outro. Talvez uma década produzisse algum tipo de modificação que valesse a pena medir. Talvez. E ficar a medir oscilações de vírgulas, será um bom negócio para as casas de estudos de opinião, mas não me interessa pessoalmente nem lhe vejo um valor por aí além para a cidadania.

Isto não significa que tenha posto de lado voltar à categorização da imprensa e do que ela tem de mais impactante na vida política. Simplesmente não queria repetir, queria fazer mais e melhor. Em primeiro lugar, mais sobre os colunistas. É o objeto de hoje. Em segundo lugar, a camada de decisão editorial dentro dos jornais — diretores e editores, bem como os chefes de secção ou turno, em quem os primeiros delegam responsabilidades de seleção e orientação.
(Na segunda parte do estudo, a publicar na próxima semana: para saber o que cada publicação faz, vigiei 21 homepages, hora a hora, durante um mês — 68 mil apresentações de notícias, 1.854 títulos reescritos entre a peça (o artigo) e a montra (a primeira página), 4.800 menções a políticos classificadas uma a uma. Adianto uma conclusão: o viés noticioso não está onde a reputação o coloca.)

⦿ Portanto, e resumindo: o presente estudo não é comparável com o de 2024 por concepção desde logo e à partida, nem pretende ser uma sua sequência. É mais uma consequência. O corpo de dados é diferente para maior (mais colunistas, mais meios) e para melhor (a filtragem de “não política” e de “pouca política” foi impiedosa) e acima de tudo o objetivo foi diferente. Estamos muito à frente da divisão do viés que foi o único ponto do estudo de 2024.

Dito isto, cabe referir que nesse ponto do viés os números de 2026 apontam um maior equilíbrio esquerda <> direita do que em 2024. Mas não retiro nenhuma conclusão:

  • não, os jornais não ficaram impressionados e desataram a contratar gente de esquerda para assegurar equilíbrio

  • não, os colunistas não desataram a mudar de campo

  • não, o modelo não classificou de forma diferente

O que pode explicar essa diferença? Bem melhores fatores:

  • o número de colunistas aumentou

  • o número de publicações aumentou (e uma desapareceu)

  • e o meu candidato favorito, o único que merece uma reflexão/investigação: o corpo de artigos de 2024 coincidiu sobretudo com governos de esquerda, e em especial o fim atribulado do governo Costa, enquanto os artigos analisados agora são praticamente todos do período em que a direita tem dois terços do Parlamento, tem o Governo, tem as regiões autónomas e tem as principais cidades do país. É de esperar que a opinião publicada reflita parcialmente esta mudança — por ambição declarada e até alguma tradição (embora também a haja contrária), a imprensa supõe-se crítica dos poderes.

O que foi feito agora

Explico primeiro o que foi feito agora, porque o método é metade da história.

Ao longo dos últimos tempos reuni cerca de 111 mil artigos de opinião publicados entre 2014 e 2026 nas edições online de treze títulos da imprensa portuguesa — Público, Expresso, Observador, DN, JN, Correio da Manhã, Sábado, Visão, Sol, ECO, Jornal de Negócios, Jornal Económico e TSF. Tanto quanto sei, é o maior corpus de opinião publicada alguma vez reunido em Portugal. Desse universo identifiquei cerca de 300 autores com produção regular, recente e assinatura individual. Excluí os que não escrevem sobre política — cronistas de costumes, de cultura, de desporto ou de humor, por muito regulares que sejam, porque este exercício só faz sentido sobre textos com tomada de posição política identificável. E incluí, além dos apurados pelo critério de regularidade, alguns autores de relevância editorial evidente com produção suficiente para serem avaliados. Ficaram 215 classificados.

Cada um dos 215 foi classificado numa escala de −6 (esquerda) a +6 (direita), inspirada na grelha do AllSides, o sistema americano de classificação de viés mediático, mas calibrada para o espectro político português, com âncoras nacionais: Bloco e PCP na zona dos −4/−5, PS mainstream nos −2/−1, centro tecnocrático à volta do zero, PSD e IL nos +2/+3, Chega nos +4/+5. A classificação foi feita por um modelo de linguagem (Claude Sonnet, da Anthropic), com uma grelha de instruções fixa que descrevo com mais detalhe na caixa metodológica no final.

Dois princípios do método importam para avaliar os resultados. Primeiro: a classificação deriva exclusivamente dos textos. Não do partido em que o autor milita ou militou, não dos cargos que ocupou, não da reputação. Cada posição atribuída tem de estar ancorada numa citação concreta do corpus; sem frase que a sustente, a posição não conta. Segundo: a grelha inclui instruções explícitas para os sinais que costumam enganar este tipo de análise. Criticar o Chega não é indício de esquerda — fá-lo boa parte do PSD. Preocupação com o défice não é indício de direita — era a marca de Centeno. Criticar o Estado tanto pode ser um liberal a querer reduzi-lo como um socialista a lamentar que falhe aos cidadãos. Nestes casos, o modelo é instruído a decidir pelo contexto, não pela palavra-chave.

Vamos aos resultados e sua análise, agora na parte reservada aos assinantes que apoiam a VamoLáVer — um apoio imprescindível para este estudo, que foi um grande consumidor de Inteligência Artificial. Se o leitor tem uma subscrição gratuita, pode beneficiar de uma campanha criada para este dossiê duplo, dado o seu interesse público. Usando este link, beneficia de um desconto de 25% sobre a assinatura — 5,63 euros mensais / 56,25 euros anuais em vez de 7,5/75, uma campanha válida até dia 20, para incluir a segunda parte.

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(Além da análise abaixo, os apoiantes têm também acesso completo à página interativa com todas as classificações e atribuições dos 215 autores analisados, bem como a um ChatGPT especial em que podem colocar questões aos dados que não foram contempladas por mim.)

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