[E.23] 🥷☢️ À sombra do nuclear, Israel elevou para estado de guerra o conflito de décadas com o Irão
O ataque de Telavive a Teerão na sexta-feira rompe com um passado de guerra por procuração: o Irão respondeu a Israel e pela primeira vez os dois atingem as respetivas capitais numa guerra aberta
Às primeiras horas de ontem (sexta-feira, 13 de junho de 2025), as Forças de Defesa de Israel atacaram vários pontos do território do Irão, incluindo a capital, Teerão. Durante meses, se não anos, agentes israelitas planearam uma ofensiva generalizada contra o seu arqui-inimigo. Não é, como anteriormente, uma “operação”: é a guerra.
Hoje a República Islâmica respondeu atacando — pela primeira vez — o território de Israel e em concreto a capital, Telavive.
Este movimento iniciado por Israel escala um conflito de décadas: é a primeira vez que os dois países se enfrentam militarmente território a território, deixando para trás as guerras por procuração, especialidade iraniana, e os ataques seletivos, especialidade israelita.
Está tudo em aberto e as notícias sucedem-se numa espiral de acusações e reações em cadeia. É imprevisível o que vai suceder no Médio Oriente, e no Mundo, a partir do movimento desencadeado ontem pelo primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Além do choque, fomos (genericamente) apanhados de surpresa. À exceção dos pequenos grupos que, por diversas razões, seguem com atenção o Médio Oriente em geral e os conflitos em particular, a esmagadora maioria das populações europeias tem na surpresa o elemento dominante. A que se segue o temor: na origem do conflito entre as duas maiores potências militares que disputam a supremacia na região (a Turquia, o outro gigante militar, nunca mostrou essa ambição) está a questão da energia nuclear para fins militares. Isto é: possuir bombas atómicas.
Este Especial VamoLáVer, exclusivo para os nossos apoiantes, procura sintetizar o histórico entre os beligerantes agora em conflito aberto. Não é um artigo que procure explicar, interpretar ou aprofundar o conflito: revistas da especialidade fá-lo-ão melhor. Trata-se de uma primeira aproximação aos factos e às suas cronologias, sempre com a questão do nuclear como fio condutor. Recorremos mais do que é habitual à narrativa gráfica dentro dessa lógica de compreensão rápida do enquadramento da guerra ontem iniciada e que tem um grande potencial de perigosidade para a Europa em geral, Portugal incluído.
Capítulos abertos:
Escrever sobre Israel é (agora mais) perigoso — a nota do editor
2024: na antecâmara da escalada
Porque é que evitavam atingir as capitais?
Porque tardou o confronto direto aberto?
Intervenções militares no Médio Oriente por país (Israel, Irão e os outros)
Capítulos fechados:
Ambições nucleares: uma ameaça persistente?
Uma região em desequilíbrio estratégico
Programas nucleares no Médio Oriente: os casos centrais
O caso do Irão: de vigilância a alarme
Capacidade latente: o risco silencioso
Israel: doutrina preventiva e ofensiva regional
A doutrina Begin: atacar antes que seja tarde
Intervenções notáveis de Israel
Uma máquina de guerra de alta precisão
Discreto mas agressivo
Irão: estratégia indireta e influência através das fronteiras
Uma força invisível, mas eficaz
A rede de influência regional
Intervenções diretas e por procuração
Mísseis e drones: a nova fase
Capacidade nuclear: entre o limiar e a dissuasão
O Irão é já uma potência regional?
Andam há 20 anos a alertar para a construção das bombas pelo Irão. É assim tão demorado?
Exemplos históricos
Considerações técnicas
Nos programas nucleares, algum país suscitou tantas reações negativas como o Irão?
Países com armas nucleares reconhecidas
Países com armas nucleares fora do Tratado de Não Proliferação
Países com suspeitas, programas interrompidos ou capacidades latentes
Cronologia das sanções e reações diplomáticas aos arsenais nucleares
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ATENÇÃO: este é um artigo longo (20 minutos de leitura) e por isso é provável que na leitura por e-mail surja cortado no final. Algumas aplicações de correio eletrónico cortam as mensagens que consideram demasiado extensas. Se for o caso, no final estará o botão para ler o resto no site.
NOTA DO EDITOR
Escrever sobre Israel é (agora mais) perigoso
Publicar uma linha sobre Israel é nos dias que correm um grande perigo. Sempre foi, na verdade, mas nunca como hoje foi tão intensa e disseminada a violência dos protetores daquele Estado.
Não se pode fazer uma crítica, por mais tímida e superficial que seja, que não apareçam imediatamente os guerrilheiros da religião judaica, os defensores do povo judeu e a guarda armada do Estado israelita a atacar a pessoa, a admoestá-la, a pô-la em sentido, a fazê-la sumir do espaço público.
Começo por estas linhas para esclarecer desde o início que:
não sou anti-semita, isto é, não discrimino judeus em particular, embora me insurja contra a religião em geral, contra qualquer ato religioso que coarcte as liberdades individuais e coletivas do outro e dos outros. E mesmo ser anti-religiões é sempre mal visto, no sentido em que parece que sou contra as pessoas terem uma fé. Não sou. A fé dos outros não me interessa de todo e não a litigo. Jamais. Respeito a fé enquanto necessidade pessoal, enquanto atitude individual, na exata medida em que respeito as pessoas. O que me interessa, e litigo sempre que tenho oportunidade, é a religião enquanto vetor de poder. Num exemplo, quando um católico quer fabricar legislação de controlo do corpo da mulher. Noutro exemplo, quando um muçulmano dirige um país usando as leis da Xaria em vez das leis civis.
não sou anti-sionista. As minhas questões sobre a criação do atual Estado de Israel são fechadas num contexto histórico do qual não saem para rejeitar hoje esse Estado.
Sou visceralmente anti-teocracias. O segundo exemplo no ponto acima diz tudo, desde já, acerca do meu olhar sobre um dos países envolvidos nesta edição especial: o Irão, uma república islâmica governada por uma teocracia. Nada me move na defesa de uma teocracia. O que não me força a desconsiderar as populações, as suas vidas e os seus sofrimentos.
A simetria com outros regimes e países só é quebrada num ponto: tudo me move na defesa da democracia enquanto sistema de organização coletiva, nada me move a favor de nenhum tipo de autocracia em qualquer das suas vertentes.
Explicado isto, esforcei-me para que esta edição especial da VamoLáVer sobre a situação no Médio Oriente ficasse o mais informativa possível e o mais isenta possível. Sendo que estou perfeitamente consciente de que esta isenção está subordinada a uma visão europeísta e “ocidental” (entre aspas para distinguir a geografia da dimensão cultural criada pela expansão de povos europeus por vários continentes). Na verdade, dela não posso nem quero abdicar. Mas dentro dela é possível — e desejável — olhar para o Médio Oriente e em especial o conflito de décadas entre Israel e Irão sem cair na (nem nos deixarmos empurrar para a) simplificação de “bons” e “maus” que na realidade impede a compreensão do que ali se passa, e dos seus efeitos globais.
Sintetizando:
descrever em palavras que não sejam encómios as ações do governo de Israel e dos vários governos que dirigiram o país ao longo do período aqui relatado não é ser anti-semita nem anti-sionista
o presente governo de Israel foi aquele que escalou a situação de conflito e escaramuças para uma guerra aberta sem precedentes. E repito: o presente governo. Que é um governo de coligação com partidos de extrema-direita. É esse governo em concreto que está aqui na berlinda, e não o Estado ou a população israelita
quando se escreve que no atual movimento na região Israel é a potência agressora, está-se a ser factual. E se esse facto pode ser usado para legitimar respostas militares do país agredido, como de resto foi, e sublinho a simetria, usado por Israel na sua defesa contra o ataque do Hamas, fica-se por aí: não é um endosso do governo de Teerão, nem um endosso do governo de Telavive.
2024: na antecâmara da escalada
Até 13 de junho de 2025, Irão e Israel nunca se envolveram num conflito militar direto, sustentado e declarado, com uso de armamento convencional e atingindo as respetivas capitais. No entanto, houve sinais recentes de que isso estava a mudar, aproximando-se perigosamente de um confronto direto limitado.
Abril de 2024 marcou a primeira troca militar aberta e direta entre Irão e Israel.
Não chegou a ser um conflito convencional sustentado, mas representa uma rutura importante com o padrão anterior de ataques indiretos e encobertos.
Eis os factos mais relevantes:
📆 Abril 2024 – ataque israelita ao consulado iraniano em Damasco
Israel bombardeou um edifício do consulado iraniano na Síria, matando generais da Guarda Revolucionária.
Irão prometeu “resposta decisiva”.
📆 13 de abril de 2024 – ataque direto do Irão a Israel
Irão lançou mais de 300 drones e mísseis (alguns balísticos) contra Israel.
Foi a primeira vez que o Irão atacou diretamente território israelita de forma aberta.
Israel, com apoio dos EUA, Reino Unido e Jordânia, intercetou a maioria dos projéteis.
📆 19 de abril de 2024 – contra-ataque israelita
Israel retaliou com um ataque aéreo limitado ao Irão, perto de Isfahan (zona sensível do programa nuclear).
Alvos e danos oficialmente não confirmados; Irão minimizou o impacto.
Houve movimentações de aviação e drones em dias consecutivos, mas nenhum dos lados declarou guerra ou prolongou o confronto por mais de 48 horas.
🎯 Porque é que evitavam atingir as capitais?
⚖️ Dissuasão mútua - Atingir a capital seria considerado ato de guerra total.
🧨 Risco de escalada nuclear/regional - Principalmente no caso de Israel reagir a um ataque a Telavive.
🌐 Pressão internacional - Atingir áreas civis em capitais causaria condenação global.
🛰️ Capacidades de interceção - Israel tem sistemas como Iron Dome, Arrow e David’s Sling.
🎯 Porque tardaram o confronto direto aberto?
Distância geográfica: Não partilham fronteiras terrestres.
Risco de escalada nuclear/regional: Ambos reconhecem o risco de consequências catastróficas.
Guerra por procuração como alternativa mais segura: Menos risco de retaliação direta e condenação internacional.
Pressão internacional (especialmente EUA, Rússia e China): Controlo sobre as intenções ofensivas.
🗺️ Intervenções militares no Médio Oriente por país
🇮🇱 Israel
Intervém em: Líbano, Síria, Iraque, Egipto, Jordânia, Sudão, Tunísia, e indiretamente no Irão (ciberataques, assassinatos).
Motivações: Prevenção de ameaças existenciais (nucleares, Hezbollah, Hamas), doutrina preventiva (Begin), controlo de fronteiras.
🇸🇦 Arábia Saudita
Intervém em:
🇾🇪 Iémen (desde 2015, guerra contra os Houthis).
Apoio indireto a forças em Síria, Bahrein, Líbano (milícias sunitas).
Motivações: Conter o Irão e os xiitas, preservar regimes aliados, manter a liderança sunita regional.
🇮🇷 Irão
Intervém em:
🇮🇶 Iraque (milícias xiitas, influência política desde 2003).
🇸🇾 Síria (apoio total a Bashar al-Assad).
🇾🇪 Iémen (apoio aos Houthis).
🇱🇧 Líbano (comando efetivo do Hezbollah).
Motivações: Expansão da influência xiita e estratégica, resistência a Israel e aos EUA, eixo Teerão-Beirute via Bagdade e Damasco.
🇹🇷 Turquia
Intervém em:
🇸🇾 Síria (ocupação parcial de zonas fronteiriças desde 2016).
🇮🇶 Iraque (operações contra o PKK no Curdistão).
Presença indireta em Líbia e Qatar (fora da região imediata).
Motivações: Combate ao separatismo curdo, contenção de rivais regionais (Irão e Arábia Saudita), projeção de influência neo-otomana.
🇮🇶 Iraque (Saddam Hussein)
Intervém em:
🇮🇷 Irão (Guerra Irão-Iraque, 1980–88).
🇰🇼 Kuwait (invasão em 1990).
Motivações: Ambição regional, controlo de recursos, revanche ideológica contra o Irão xiita.
🇸🇾 Síria (regime de Assad)
Intervém em:
🇱🇧 Líbano (ocupação de 1976 a 2005).
Motivações: Influência política, contenção da OLP e depois controlo sobre o sistema político libanês.
🇪🇬 Egipto (Nasser e após)
Intervém em:
🇾🇪 Iémen do Norte (guerra civil, 1962–1967, contra monárquicos apoiados pela Arábia Saudita).
Guerras diretas contra 🇮🇱 Israel (1948, 1956, 1967, 1973).
Motivações: Nacionalismo pan-árabe, competição regional, oposição a Israel.





