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👶💰 E se falássemos antes de baby bonds?

As esquerdas precisam de sair do marasmo eleitoral. Na era da IA, a VamoLáVer propõe três novas bandeiras. Como chamariz de atenção, as esquerdas não dispõem de melhor que os baby bonds.

abr 06, 2026
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TL;DR - As esquerdas perderam o poder de atração dos eleitores, é um equívoco pretenderem recuperar as bandeiras do passado, precisam de novas narrativas que proponham resolver os problemas de hoje e amanhã, que são substancialmente diferentes. Entre outras que abordarei apenas pela rama, vou apresentar três propostas para tratar em outros tantos especiais da VamoLáVer, a primeira das quais já neste: os baby bonds, ou títulos de nascimento. As outras virão a seu tempo (um excelente pretexto para se tornar apoiante da VamoLáVer e recebê-las, pois serão de acesso exclusivo. É um custo pequeno para o leitor mas faz a diferença pois permite pagar os custos do fabrico da VamoLáVer).

Índice

Um capítulo de acesso livre:

  1. Introdução ao ponto de partida

Quatro capítulos de acesso exclusivo:

  1. O ponto de partida: o desacoplamento do trabalho e do capital

  2. Interlúdio (ou: a Quarta Via)

  3. A proposta: baby bonds

    • quanto receberia hoje um jovem se existissem baby bonds de 5.000 € em 2008?

    • e quanto teria isso custado em % do PIB? (dica: 5x menos do que a Defesa)

    • pontos negativos e positivos

  4. Nota final


✂️ 📊 Introdução ao ponto de partida

Em traços gerais, as narrativas das esquerdas foram convincentes ao longo do século XX, embora não exatamente coincidentes na linha temporal, chegando a uns países mais depressa que a outros, em formas mais para o progressivo (a social-democracia no norte da Europa) ou mais para o abrupto (a Revolução dos Cravos em 1974 é um excelente exemplo, como veremos neste especial).

Não apenas convincentes: foram mesmo efetivas. Como vou demonstrar através das séries estatísticas e quadros, as narrativas das esquerdas consubstanciaram-se numa transformação económica notável, levando efetivamente ao ganho de poder económico (e também social e político) das massas trabalhadoras. Esse ganho é visível nos salários mas também na construção do chamado “estado social” — das mais nobres construções da Humanidade, o momento histórico em que a rede de proteção dos indivíduos pelo coletivo funcionou melhor.

Ora, isso tudo faz parte do passado. Hoje o que temos é uma genérica dificuldade dos partidos das esquerdas um pouco por todo o lado, ainda que a velocidades diferentes. Para usar um exemplo, a cantiga do trabalho contra o capital já moveu milhões, hoje só mexe os músculos do riso: há capital e há trabalho, o que não há é “contra”. Têm sido avançadas diversas explicações e apontados culpados a eito, com uma profusão de críticas e até auto-críticas, mesmo que tímidas. Das redes sociais à extrema direita passando pelo extraordinário poder acumulado da minúscula classe dos bilionários, pelo desgaste da governação, pela ascensão do populismo, pelo ocaso do exercício do gate-keeping pela Comunicação Social, pelas tecnologias de informação e conhecimento, pelos “desvios discursivos” com o foco nos direitos de minorias, a leitora e eu já lemos toda a casta de explicações.

Mas estamos no mesmo sítio. Em traços gerais, ao longo de 20 anos, ou mais, as esquerdas na Europa têm resistido pouco e mal à erosão eleitoral. E nada (a)parece suscetível de modificar o curso.

A Grande Pergunta que todos fazemos olhando consternados uns para os outros é: como inverter o declínio, como recuperar o eleitorado?

Mas esta formulação não ajuda. Pressupõe que a sociedade continua a funcionar, em traços gerais, da mesma forma que nos dois últimos séculos, ao longo dos quais as narrativas de esquerda nasceram, cresceram e frutificaram, contribuindo com a sua parte para os melhores 60-70 anos que o mundo viveu em pelo menos um milénio — não todo o mundo, claro, mas uma fatia importante dele, e a fatia da qual nós, os nossos avós e pais fazem parte.

É por essa via que comecei a refletir sobre O Problema Da Narrativa Das Esquerdas. Com a pergunta: está mesmo tudo igual?

Nope, não está. Convém meter já aqui a colherada da Inteligência Artificial, que vai estar presente em todas as propostas de novas bandeiras para as esquerdas. Cerca de 2008, em pleno impacto da crise do sub-prime que mergulhou a economia mundial num buraco bem negro e fundo, comecei a interessar-me pelos efeitos das tecnologias da informação e conhecimento — as TIC, a Internet, os computadores — na economia e nomeadamente no trabalho. O medo da automação destruir empregos não é de hoje, nem sequer desse ontem: vem de muito atrás, pelo menos da industrialização. Mas não vou recuar tanto. Desde essa altura, 2008, que sigo com atenção o assunto da substituição do trabalho pelas máquinas e automatismos e, muito recentemente, das inteligências artificiais. Cheguei a entrevistar Martin Ford, o autor de um livro muito interessante que em 2009 procurou antever esse impacto (The Lights in the Tunnel: Automation, Accelerating Technology and the Economy of the Future).

Resumindo estes 18 anos de temor pelo fim do trabalho: a taxa de desemprego é hoje ligeiramente menor. O trabalho não acabou. O emprego não acabou. Nem a informática, nem os automatismos por software, nem mesmo as inteligências artificiais produziram ainda esse efeito. Até mesmo os EUA, cuja economia está mais exposta aos efeitos da automação, estão hoje em pleno emprego (taxa inferior a 4%, praticamente igual a 2000 e metade do que era dois anos antes do ChatGPT aparecer). Na UE e em Portugal os números são menos acentuados mas a história é a mesma: mais emprego hoje que em qualquer ano dos últimos 25 anos. Pior emprego, piores salários comparativos, mas mais emprego.

Ainda, escrevi acima. Não fiquemos descansados. O decoupling trabalho-capital está a acelerar com a IA de uma forma estruturalmente diferente das anteriores vagas de automação por uma razão simples: as vagas anteriores destruíam trabalho rotineiro mas criavam trabalho cognitivo. A IA ataca directamente o trabalho cognitivo, que era a válvula de escape das transformações económicas de origem tecnológica.

A IA não é a razão mas somente uma peça da mudança estrutural de longo curso que, essa sim, é o ponto de partida para explicar a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, de as esquerdas meramente renovarem os seus votos — e a necessidade urgente de elaborarem e testarem as novas narrativas que convençam os eleitorados de que há formas melhores de vivermos amanhã, nós e os nossos filhos e netos.

Antes de passarmos à proposta do dia — os títulos de nascimento, talvez o melhor instrumento isolado para evitar a condenação geracional da pobreza — é preciso compreender um pouco melhor que mudança estrutural é esta e porque mantém as esquerdas tolhidas no seu canto do ringue, incapazes de iniciar um novo assalto no combate das propostas convincentes.

Portugal tem uma estrutura económica particularmente vulnerável ao decoupling trabalho-capital. O peso dos salários no PIB é dos mais baixos da UE, a produtividade cresce lentamente, e a economia depende de sectores intensivos em trabalho de baixo valor (turismo, logística, construção) que são simultaneamente os mais expostos à automação de primeira vaga. Quando a IA atacar o trabalho cognitivo de forma mais ampla — o que os indicadores de adopção empresarial sugerem que acontecerá na presente década — Portugal não tem a almofada de capital privado distribuído que países como a Holanda ou a Dinamarca têm. A mediana da riqueza líquida das famílias portuguesas é das mais baixas da zona euro; a concentração no decil superior é das mais altas.

✂️ 📊 O ponto de partida: o desacoplamento do trabalho e do capital

A mudança estrutural consegue mostrar-se num gráfico, o acima, mas consigo descrevê-la num parágrafo? Vou tentar, a partir de agora só para assinantes.

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