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🤥 🐍 Como (e quanto) mentiu Montenegro — só este ano

Analisadas as declarações e atos, os dados pintam um quadro deprimente. Mas o PM está bem enquadrado: hoje em dia a sociedade encoraja e recompensa a mentira.

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Paulo Querido
out 05, 2025
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[ Edição exclusiva nº 25. ]

O ponto de partida para esta investigação não é propriamente uma novidade. Há a ideia generalizada de que o atual Primeiro Ministro de Portugal, Luís Montenegro, é um daqueles políticos aldrabões, até mesmo mentirosos, que se foi enraizando quer pelas suas muitas contradições narrativas entre os tempos de oposição e os de governante (o que não se pode considerar raro), quer pela defesa, através de artifícios conversacionais, da sua empresa pessoal e familiar, num caso que ainda não desapareceu da vida pública, apesar de congelado desde que em maio venceu as legislativas que provocara para evitar a comissão de inquérito à Spinumviva que se preparava no Parlamento.

O objetivo era perceber até que ponto esta ideia corresponde à realidade, ou nem por isso. Para tal, decidi concentrar-me apenas no noticiário entre 8 de janeiro e 2 de setembro deste ano, e apenas em marcas noticiosas com boa reputação (Público, Expresso, RTP maioritariamente), para não “sujar” a recolha com dados eminentemente subjetivos, oriundos de marcas sem escrúpulos e outras que confundem (deliberadamente por vezes) informação com opinião e opinião com propaganda.

Mais à frente descrevo a metodologia usada para obter um pacote de 4.555 peças noticiosas em que aparece o nome de Luís Montenegro e a sua filtragem para obter 584 notícias (cerca de 13% do total) pertinentes para a investigação. Essa foram por sua vez analisadas para perceber qual o assunto, se Montenegro disse a verdade, foi omisso, mentiu, se prometeu, se o que disse é coerente com o que fez, se efabulou — e também se se contradisse, que é outra característica cada vez mais presente em governantes, deputados e autarcas, revelando o crescente distanciamento da realidade. Fizemos também verificação de factos a cinco afirmações suas sobre a Spinumviva.

Os resultados estão apresentados abaixo. E os dados usados para os obter estão disponíveis numa base de dados pública, de forma transparente, para que possam ser verificados por outras pessoas (link abaixo).

Na nota de editor faço a minha interpretação dos indicadores obtidos e acabo por normalizar o anormal índice de mentira justamente associado a Luís Montenegro — e ao tempo em que ele é Primeiro Ministro.

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Nesta edição, em leitura aberta:

  • Metodologia: do papel da inteligência natural ao papel da inteligência sintética

  • Os 11 temas favoritos de Montenegro (e como foram sendo usados e deitados fora)

Conteúdo exclusivo para apoiantes VamoLáVer

  • As contradições de Montenegro e do seu Governo em oito casos recorrentes

  • O caso Spinumviva ao longo de 2025

  • Cinco verificações: três mentiras, um parcialmente verdadeiro e um indeterminado

  • Nota do editor: sim, mente acima da média habitual, o que hoje em dia é uma grande vantagem

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“Eu não minto: interpreto”. Crédito: Sora, com Paulo Querido

Metodologia: do papel da inteligência natural ao papel da inteligência artificial

Foram usados dois tipos de inteligência para produzir este exclusivo.

A natural executou duas tarefas. Primeira, a definição dos parâmetros para a recolha das peças noticiosas que serviriam de base, e a programação dos scripts necessários à sua limpeza, arquivo e catalogação. Segunda, a especificação das tarefas a delegar à inteligência artificial e a elaboração das instruções necessárias para os modelos de linguagem trabalharem em cima de uma tão vasta quantidade de dados que impossibilitaria a análise humana.

A artificial teve quatro tarefas. Primeira, ler cada artigo para perceber o enquadramento do nome do Primeiro Ministro. Segunda, ler os artigos específicos com declarações atribuídas a Montenegro, perceber o seu contexto e devolver as frases e os assuntos. Terceira, encontrar as contradições discursivas (com o apoio de largas quantidades de textos sobre a atividade do Governo e o seu programa). Quarta, verificar a factualidade das declarações.

A fase de recolha incidiu sobre um arquivo com dezenas de milhar de peças noticiosas obtidas este ano a partir dos sites das marcas de comunicação social. Foram isolados 4.555 artigos com a expressão “Luís Montenegro”, que foram depois sujeitas a uma primeira filtragem para separar as peças em que surge por obrigação (exemplo: notícia sobre a tomada de posse de alguém, na qual o Primeiro Ministro esteve presente), de passagem (o seu nome aparece mas a peça nada tem a ver com ele), em segundo plano (está dentro do assunto mas não é o visado na notícia) — e aquelas em que é o objeto principal ou assunto único da peça noticiosa.

Dados

As notícias e as frases escolhidas para as análises estão em duas páginas no documento tipo folha de cálculo 🤥 🐍 Como (e quanto) mentiu Montenegro só em 2025, disponibilizado no Sheets da Google.

Os prompts usados para o large language model GPT-4 e os diálogos de análise dos resultados mantidos com o ChatGPT não são públicos.

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Os 11 temas favoritos de Montenegro (e como foram sendo usados e deitados fora)

Os assuntos mais comuns abordados por Luís Montenegro e o seu Governo, bem como aqueles que geraram maior debate público, podem ser agrupados da seguinte forma:

1. Crise Política e Estabilidade Governamental:

◦ Moções de Censura e Confiança: A apresentação e o chumbo da moção de confiança ao Governo foram eventos centrais, levando à sua demissão e à antecipação das eleições. O Chega e o PCP também apresentaram moções de censura que foram rejeitadas.

◦ Eleições Antecipadas: A inevitabilidade de novas eleições foi uma discussão recorrente, com Montenegro a afirmar que parecia não haver alternativa a "devolver aos portugueses a capacidade de escolher".

◦ Diálogo e Consenso Político: Montenegro tem reiterado a sua disponibilidade para dialogar com "todas as forças políticas", mas rejeitou acordos de governação permanentes com o PS ou o Chega.

◦ Revisão Constitucional: Montenegro afirmou que a revisão constitucional "não é uma prioridade" do Governo nesta fase.

2. Caso Spinumviva e Transparência:

◦ Empresa Familiar: A empresa Spinumviva, detida pela família de Luís Montenegro (mulher e filhos), e da qual Montenegro foi fundador e gerente, foi o foco principal da crise política.

◦ Conflito de Interesses e Incompatibilidades: Levantaram-se dúvidas sobre o cumprimento do regime de incompatibilidades e impedimentos, especialmente após notícias de que a empresa recebia avenças enquanto Montenegro exercia cargos públicos.

◦ Declarações de Rendimentos e Património: Foram pedidos esclarecimentos sobre as declarações de rendimentos e contas bancárias de Montenegro ao Tribunal Constitucional e à Entidade para a Transparência. Houve controvérsia sobre a oposição à consulta pública de dados relativos a imóveis.

◦ Investigações: A Procuradoria-Geral da República abriu averiguações preventivas e pediu documentos à Spinumviva e aos seus clientes. Montenegro pediu uma auditoria à Entidade para a Transparência.

3. Saúde e SNS:

◦ Tempos de Espera e Cirurgias Oncológicas: Montenegro prometeu reduzir os tempos de espera, garantindo melhorias, apesar de reconhecer que os resultados são lentos e que ainda há problemas.

◦ Médicos de Família e Urgências: Houve críticas sobre o aumento de utentes sem médico de família e o encerramento de serviços de urgência, com Montenegro a defender que a situação é melhor do que há um ano.

◦ Gestão do SNS: A oposição acusou o Governo de falhanços e instabilidade na gestão do SNS, com demissões de diretores e conselhos de administração.

4. Imigração:

◦ Política de Imigração Regulada: O Governo defendeu uma política de imigração "regulada e humanista", focando-se no tratamento de processos pendentes e no controlo das entradas.

◦ Medidas de Controlo: Anúncio de notificações para cidadãos estrangeiros abandonarem o país voluntariamente, o que gerou críticas de "eleitoralismo" e "trumpização" da campanha.

◦ Acordos com o Chega: Houve um "princípio de acordo" com o Chega sobre alterações à lei da nacionalidade e criação da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) na PSP, gerando acusações de "vender a alma" à extrema-direita por parte do BE.

5. Economia e Finanças Públicas:

◦ Criação de Riqueza e Pobreza: Montenegro defendeu que a erradicação da pobreza se faz pela criação de riqueza e não com "atitudes caritativas".

◦ Redução de Impostos: O Governo propôs e implementou descidas do IRS e prometeu continuar a fazê-lo.

◦ Excedente Orçamental: O Governo destacou o excedente orçamental alcançado, superando as previsões mais otimistas.

◦ Tarifas e Comércio Internacional: Preocupação com as tarifas dos EUA e a defesa do comércio livre.

6. Defesa Nacional:

◦ Aumento do Investimento: Portugal manifestou o compromisso de antecipar a meta de 2% do PIB em Defesa, pedindo a ativação de uma cláusula de salvaguarda europeia para não afetar o défice.

◦ Consenso Político: Montenegro pediu o "maior consenso possível" na área da Defesa, dada a importância estratégica.

7. Habitação:

◦ Construção de Habitação Pública: Aumento do objetivo de construção de casas públicas através do PRR, de 26 mil para 59 mil.

◦ Lei dos Solos: Debates sobre a lei dos solos, que Montenegro defendeu como um instrumento para travar a especulação e aumentar a habitação acessível.

◦ Demolições: A operação de demolição de casas em Loures, e a necessidade de medidas dissuasoras para evitar a edificação de bairros de barracas, foi um tema abordado.

8. Relações Externas:

◦ Cabo Verde: Montenegro apontou Cabo Verde como um "parceiro prioritário", destacando acordos bilaterais e o alargamento de linhas de crédito e programas de conversão de dívida em investimento verde.

◦ Brasil e Mercosul: Defesa intransigente do Acordo UE-Mercosul e dinamização das relações comerciais.

◦ Conflitos Internacionais: Posição sobre a solução de dois Estados para Israel e Palestina, e a possibilidade de envio de militares para a Ucrânia no âmbito de um processo de paz.

9. Incêndios Florestais:

◦ Combate e Prevenção: Debate sobre a coordenação do combate aos incêndios, com Montenegro a expressar pesar pelas vítimas e a reconhecer "falta de cuidado e negligência", apesar de defender que o Governo esteve "ao leme".

◦ Apoio às Populações: Anúncio de medidas de apoio às populações afetadas.

◦ Críticas: Oposição criticou a gestão do Governo, a falta de ativação do Mecanismo Europeu de Proteção Civil e a participação de Montenegro na Festa do Pontal durante os fogos.

10. Reforma do Estado e Burocracia:

◦ O programa do Governo foca-se na simplificação de processos e desburocratização, prometendo uma "guerra à burocracia".

11. Lei Laboral:

◦ Discussão da lei laboral com parceiros sociais para encontrar uma proposta consensual, focando-se na flexibilização dos regimes laborais.

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